“Que moraram comigo, viveram comigo, e eu tive que dar rumo, são quatro. Com o Diego [filho de consideração], cinco. Agora, tem gente aí que você vai perguntar e vai te falar: ‘sou filho da Yone na militância, tanto meninos como meninas, cis e trans.”
Aos 69 anos, a fotógrafa e ativista Yone Lindgren representa muito mais do que a sua própria trajetória: ela encarna a resistência de uma geração LGBTQIA+ que enfrentou a ditadura militar, o estigma do HIV, a patologização da homossexualidade e, mesmo diante da violência e invisibilidade, seguiu firme construindo políticas públicas e abrindo caminhos. Uma dessas contribuições foi sua atuação no programa Brasil Sem Homofobia, lançado em 2004, marco inicial para políticas mais inclusivas.
Yone assumiu sua identidade lésbica aos 15 anos, em pleno 1971, em um almoço familiar. O silêncio foi cortado pela coragem da madrinha Ascendina, que a defendeu de qualquer preconceito. Hoje, carrega mais de 50 tatuagens no corpo, que eternizam afetos, filhos de criação e a própria militância.
“Somos os fuscas do movimento LGBTQIA+. Quanto mais velhos, mais bonitos”, diz, com bom humor, sobre sua trajetória.
Neste Mês do Orgulho LGBTQIA+ de 2025, sua história e a de tantos outros ativistas mais velhos foram colocadas no centro das celebrações. A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo escolheu o tema do envelhecimento com dignidade, ressaltando a importância de valorizar as trajetórias e os corpos maduros que resistiram em tempos sombrios.
“Se a gente não cuidar do envelhecimento com responsabilidade, voltamos a ficar em gavetinhas, isolados”, alerta Yone. Para ela, o movimento LGBTQIA+ demorou a perceber o valor da ancestralidade, algo que movimentos negros, indígenas e de matriz africana carregam em sua essência.
Além das comemorações nas ruas, iniciativas culturais reforçam o debate. O Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo, inaugurou a exposição “O Mais Profundo É a Pele”, que celebra os corpos de 25 pessoas LGBTQIA+, de diferentes idades, tons de pele e identidades. A mostra conta com a participação de Yone Lindgren e é assinada pelo fotógrafo Rafael Medina, que aos 20 anos não encontrava referências de homens gays mais velhos — e hoje busca reescrever essa ausência.
“É preciso pensar em novas formas de envelhecer, fora da ideia de que a vida se encerra após certa idade”, destaca Medina.
Outro destaque é o projeto jornalístico “LGBT+60: Corpos que Resistem”, idealizado por Yuri Alves Fernandes. A iniciativa já ultrapassou 10 milhões de visualizações nas redes e busca reforçar a empatia e o pertencimento da terceira idade LGBTQIA+. “O futuro é amanhã, mas também é hoje, para quem já está vivendo a velhice”, afirma o jornalista.
O reconhecimento do projeto rendeu prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio Criador de Notícias do International Center for Journalists (ICFJ). Para Fernandes, ver idosos trans se reconhecendo pela primeira vez em uma narrativa é emocionante: “essas histórias mostram que é possível sonhar, amar e resistir mesmo com o passar do tempo”.
Para o gerontólogo Diego Felix Miguel, especialista em diversidade e envelhecimento, o debate sobre o envelhecimento LGBT não pode ser restrito aos idosos. “Trata-se de um processo contínuo. Fortalecer vínculos intergeracionais é fundamental para que a resistência histórica não se perca e para que a luta por direitos continue avançando”, defende.
A luta coletiva também aparece como estratégia para superar a solidão — um dos maiores desafios da velhice LGBTQIA+. Jorge Caê Rodrigues, de 70 anos, ativista e professor aposentado, fundador do Grupo Arco-Íris, acredita na importância de redes de apoio afetivas para enfrentar o isolamento. Viúvo após 39 anos de relacionamento, ele retomou a vida social reunindo homens gays com mais de 50 anos em encontros periódicos.
“A velhice é uma conquista. Se eu envelheci, é porque estou vivo. Precisamos combater a imposição de uma juventude eterna”, defende Jorge, que atualmente mantém um novo relacionamento. “Continuo tendo desejo, continuo admirando o corpo masculino. Caminho para os 71 e quero chegar como o Ney Matogrosso aos 80.”
Entre todas as letras da sigla LGBTQIA+, a que enfrenta os maiores desafios no envelhecimento é a T, de trans. A presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), Bruna Benevides, reforça que travestis e pessoas trans que alcançam a velhice são verdadeiros monumentos vivos da resistência.
“Elas são rachaduras em um sistema que tenta nos apagar. São ancestrais do futuro”, afirma Bruna. Segundo a Antra, passar dos 35 anos já é um marco de sobrevivência para pessoas trans no Brasil.
As histórias de Yone, Jorge, Bruna e tantas outras pessoas que enfrentaram o preconceito com dignidade e orgulho não são apenas testemunhos do passado: são convites a refletir sobre o presente e construir um futuro mais inclusivo. Que nenhuma pessoa LGBTQIA+ envelheça sozinha ou invisível. Que cada vida que resiste seja celebrada como memória viva e referência para as próximas gerações.
Fonte: Agência Brasil

