Dentro de uma semana, a cidade do Rio de Janeiro sediará a Cúpula de Chefes de Estado do Brics, marcando o ponto alto da presidência brasileira no grupo neste ano. A reunião, que acontecerá nos dias 6 e 7 de julho no Museu de Arte Moderna (MAM), com vista para a Baía de Guanabara, simboliza não apenas um momento diplomático importante, mas também a oportunidade para o Brasil reafirmar seu papel na construção de uma nova ordem internacional.
O grupo Brics — originalmente composto por Brasil, Rússia, Índia e China, e ampliado desde 2023 para 11 membros — representa quase metade da população mundial e cerca de 39% do PIB global. Com dez países parceiros adicionais, o Brics expande sua influência e atratividade. A presença brasileira à frente do bloco neste momento confere ao país a capacidade de direcionar o debate e mediar tensões em um cenário geopolítico cada vez mais complexo.
Brasil evita viés antiocidental
Para o professor Feliciano de Sá Guimarães, especialista em relações internacionais da Universidade de São Paulo e diretor acadêmico do Cebri, o Brasil deve atuar como moderador e não permitir que o Brics seja visto como um bloco antiocidental. “O nosso objetivo não é entrar em conflito com os Estados Unidos ou com a Europa. O Brasil tem raízes profundas no Ocidente e seguirá buscando cooperação multilateral e inclusiva”, afirmou.
Segundo ele, o crescimento do grupo, com a entrada de países como Irã, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, embora aumente o peso político do Brics, também pode diluir a influência individual do Brasil, que antes era um dos cinco protagonistas. “É um novo Brics. Ainda é cedo para avaliar os impactos dessa ampliação. No curto prazo, é um desafio, mas no longo, fortalece o grupo como um todo.”
Moedas nacionais e desdolarização gradual
Um dos temas sensíveis da cúpula será a possibilidade de ampliar o uso de moedas nacionais no comércio intra-Brics, sem recorrer ao dólar. Guimarães explica que o Brasil já realiza parte de seu comércio com a China usando real e renminbi, e há indícios de transações semelhantes com a Rússia.
No entanto, o especialista alerta para os limites dessa iniciativa: “Mais de 75% das reservas internacionais brasileiras — que somam cerca de US$ 360 bilhões — estão em títulos do Tesouro dos EUA. Qualquer movimento agressivo de desdolarização poderia afetar negativamente nossas próprias reservas. Por isso, o debate precisa ser cauteloso e técnico.”
O papel estratégico do NDB
Um dos pilares institucionais mais importantes do Brics, segundo Guimarães, é o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), presidido pela ex-presidente Dilma Rousseff. Com aportes igualitários entre os cinco membros fundadores, o banco financia projetos de infraestrutura e investimentos sustentáveis (green investments).
“O NDB é a maior conquista concreta do Brics. Mesmo países que ainda não são membros plenos, como Colômbia e Bangladesh, já fazem parte do banco. Isso mostra o poder de atração da iniciativa”, avalia o professor. Ele defende um aumento no orçamento do banco para ampliar sua capacidade de financiamento e apoiar projetos de transição energética nos países-membros.
Cooperação e não confronto
Apesar da presença de países envolvidos em conflitos regionais, como Irã e Rússia, o Brasil — como líder temporário do bloco — procura manter o foco em temas consensuais, como cooperação Sul-Sul, combate às mudanças climáticas, saúde, comércio e desenvolvimento.
“O Brasil evita transformar o Brics em uma plataforma geopolítica. A entrada de países em conflito traz desafios, mas nossa diplomacia prioriza estabilidade e cooperação. Temas de segurança e defesa não estão no escopo da presidência brasileira”, afirma Guimarães.
Ele lembra que mesmo temas delicados, como o recente ataque de Israel ao Irã, foram tratados com firmeza e equilíbrio: “Houve notas de repúdio fortes, tanto do Brasil quanto do Brics, mas sem transformar o grupo em palco para disputas geopolíticas.”
Inteligência artificial e regulação de big techs
A agenda brasileira também inclui debates sobre inteligência artificial (IA), regulação das big techs e transição energética. Segundo Guimarães, as decisões do Brics não têm caráter vinculante, mas as declarações políticas podem influenciar legislações internas e pautas nacionais. “O Brasil pode usar esse espaço para dialogar e formular propostas em temas emergentes, alinhando-se com tendências internacionais.”
Projeção internacional do Brasil
A realização da Cúpula do Brics no Rio, somada à presidência brasileira no G20 e à futura COP30 em Belém, são, segundo Guimarães, estratégias para reposicionar o Brasil no cenário global após anos de isolamento diplomático. “O país tem agora a oportunidade de liderar agendas internacionais importantes e promover políticas que atendam também ao desenvolvimento nacional.”
O Brics, embora ainda não seja um bloco formal com orçamento próprio ou secretariado permanente, representa uma das iniciativas mais promissoras para uma ordem internacional mais plural, equilibrada e representativa, com voz ativa para o Sul Global.
Fonte: Agência Brasil

