Andar pelas ruas do centro histórico do Recife é vivenciar o contraste entre o passado e o futuro. Casarões coloniais do século XVII, cuidadosamente restaurados, hoje abrigam salas climatizadas, mobiliário moderno e laboratórios de tecnologia de ponta. Dentro desses prédios, equipes desenvolvem soluções em inteligência artificial, segurança da informação, logística e games. É ali que pulsa o coração de um dos maiores polos de inovação tecnológica do Brasil: o Porto Digital.
Com 475 empresas instaladas, o ecossistema de inovação gera mais de 21 mil empregos diretos e indiretos, reunindo desde pequenas startups até multinacionais líderes globais. “Cinco dos dez maiores negócios de tecnologia de informação do mundo, em número de profissionais, estão hoje no Porto Digital”, destaca Silvio Meira, professor emérito da UFPE, criador do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR) e um dos fundadores do projeto, que completa 25 anos em 2025.
De fuga de talentos a polo global de inovação
Nos anos 1990, o cenário era bem diferente. O engenheiro elétrico Eduardo Peixoto, atual diretor do CESAR, relembra o tempo em que a carreira tecnológica exigia deixar o Nordeste. “Quando eu me formei não tinha nada. A fuga de talentos era enorme. Eu mesmo fui para São Paulo e depois para Genebra”, recorda.
Peixoto retornou a Recife em 2002, quando o Porto Digital começava a sair do papel. “O objetivo era criar uma economia capaz de reter e trazer de volta a galera que tinha ido embora. Se tinha uma chance de dar certo, eu tinha que ajudar”, afirma. Hoje, o projeto se tornou referência internacional em inovação e economia criativa, atraindo empresas de diferentes continentes.
O quadrilátero de 30 hectares, equivalente a 42 campos de futebol, concentra nomes como Accenture, Deloitte, NTT Data (japonesa) e Capgemini (francesa). Essas companhias ajudam a impulsionar um ciclo virtuoso de aprendizado, inovação e formação de mão de obra qualificada.
“Cada uma dessas grandes empresas que chega é também um grande formador de capital humano. Elas trazem métodos, processos, métricas e plataformas. É um ciclo coletivo de construção de conhecimento que beneficia as pessoas e as empresas”, explica Silvio Meira.
Educação e formação de talentos
O presidente do Porto Digital, Pierre Lucena, destaca o papel da formação educacional como um dos pilares do sucesso do polo. “Hoje já temos mais de 100 projetos de inovação e educação em andamento. Só aqui no centro temos 4,5 mil alunos em três universidades, com cursos mais rápidos e residência nas empresas. Assim, os alunos já entram em contato direto com as demandas do mercado”, detalha.
Segundo ele, 1,4 mil pessoas foram formadas na área tecnológica em Recife em 2024. “Para se ter uma ideia, São Paulo forma 2 mil. Ou seja, estamos quase empatando com o maior centro do país”, compara Lucena.
A aposta em educação técnica e universitária tem sido decisiva para manter o Porto Digital em crescimento contínuo, especialmente em um cenário global em que a inovação tecnológica dita o ritmo do desenvolvimento econômico.
Incentivos fiscais e o debate sobre contrapartidas
Para estimular o crescimento do setor, as empresas instaladas no Porto Digital recebem incentivos fiscais da prefeitura do Recife. A alíquota do ISS (Imposto Sobre Serviços) é reduzida de 5% para 2%, representando uma renúncia fiscal de cerca de 60%.
Apesar do sucesso do modelo, Eduardo Peixoto defende ajustes. “As empresas vêm, pegam os talentos locais, mas não há uma contrapartida direta em educação. Por que não destinar 0,5% desse incentivo para reinvestir em formação? Isso manteria o fluxo de novos profissionais e fortaleceria o próprio ecossistema”, argumenta.
Mesmo com os benefícios fiscais, o Porto Digital representa a terceira maior fonte de receita do município. Em 2024, o faturamento das empresas embarcadas — como são chamadas as que integram o polo — alcançou R$ 6,2 bilhões, comprovando sua importância econômica e social.
A prefeitura do Recife, entretanto, não informou o valor total da renúncia fiscal.
Rec’n’Play: tecnologia, cultura e criatividade
Símbolo da efervescência tecnológica do polo, o Rec’n’Play, festival de tecnologia, inovação e economia criativa, movimenta o centro do Recife entre os dias 15 e 18 de outubro. O evento ocupa 83 espaços em 30 prédios, além de sete palcos e 37 estandes de rua, com mais de 700 atividades gratuitas.
A expectativa é de receber mais de 90 mil visitantes. O festival é uma realização conjunta da Ampla Comunicação, Porto Digital e Sebrae Pernambuco, e consolida o Recife como referência nacional em inovação e cultura digital.
Durante o evento, Pierre Lucena e Silvio Meira reforçaram a importância da integração entre educação, tecnologia e políticas públicas. “O que temos aqui é um ecossistema completo, onde o conhecimento, o empreendedorismo e a cultura se encontram. E é isso que transforma o Porto Digital em um modelo de futuro”, resumiu Lucena.
Fonte: Agência Brasil

