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Belém resgata suas raízes indígenas e históricas antes da COP30

Conhecida originalmente como Mairi, a capital paraense, sede da COP30, traz em sua origem o legado dos povos tupinambás, guardiões de saberes ancestrais sobre sustentabilidade e convivência com a natureza

04/11/2025
© Fernando Frazão/Agência Brasil

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Às vésperas de sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), entre os dias 10 e 21 de novembro, Belém — capital do Pará — se prepara não apenas para receber líderes globais, mas também para resgatar uma parte de sua história milenar. Muito antes de ser chamada Belém, a cidade era conhecida como Mairi, território do povo Tupinambá, guardião de conhecimentos ancestrais que ensinam como viver em harmonia com a floresta e os rios amazônicos.

De acordo com o historiador Michel Pinho, a ocupação humana na região é muito mais antiga e complexa do que se pensava. “Essa região da Amazônia, ao contrário do que foi ensinado por muito tempo, é densamente povoada há cerca de 11 mil anos. Pesquisadores como o arqueólogo Marcos Magalhães, do Museu Emílio Goeldi, comprovam uma intensa ocupação ao longo dos rios, lagos e igarapés”, explica.

Esses povos amazônicos desenvolveram saberes sofisticados sobre agricultura, pesca, cerâmica e manejo da floresta, muito antes da chegada dos colonizadores. Entre essas comunidades estava Mairi — ou o território de Maíra, entidade sagrada na cosmologia Tupinambá, ligada à criação do mundo e à origem de alimentos essenciais como a mandioca e o açaí, símbolos da cultura e da alimentação amazônica.

A civilização amazônica dos Tupinambás

O historiador Michel Pinho destaca que a contribuição dos Tupinambás para o desenvolvimento humano é comparável à de civilizações amplamente reconhecidas. “Costumamos atribuir o avanço tecnológico e social a povos como maias, astecas, incas e egípcios. Mas os Tupinambás também dominavam técnicas de agricultura, pesca e artesanato. Toda a costa que hoje forma o estado do Pará era ocupada por populações com profundo conhecimento da natureza e das águas.”

Estudos arqueológicos citados pelo escritor Márcio Souza, no livro História da Amazônia, apontam que essas comunidades eram densas e organizadas, podendo ultrapassar mil habitantes em áreas de cerca de 2,5 hectares. A localização estratégica de Mairi, entre o Rio Guamá e a Baía do Guajará, garantia locomoção, segurança e fartura alimentar, sustentando grandes agrupamentos humanos.

A fundação de Belém e a resistência indígena

A história de Belém mudou com a chegada dos colonizadores europeus. Durante as disputas entre franceses e portugueses pelo controle da Amazônia, Francisco Caldeira Castelo Branco foi enviado à região com uma tropa de mais de 100 soldados para assegurar o domínio português. Ele fundou, em 1616, a Cidade de Nossa Senhora de Belém do Grão-Pará, construindo o Forte do Presépio, que se tornaria o marco inicial da cidade.

Por ter navegado rumo a Mairi no período natalino, Castelo Branco escolheu o nome “Belém” em alusão à cidade bíblica. Mesmo assim, os Tupinambás resistiram bravamente por anos após a chegada dos colonizadores. Essa resistência, embora duramente reprimida, não foi suficiente para apagar o legado cultural, espiritual e ambiental deixado pelos povos originários.

Um passado vivo no presente

O historiador Michel Pinho ressalta que os costumes e saberes indígenas continuam vivos no cotidiano amazônico. “Essa ocupação Tupinambá é a prática cotidiana de milhares de pessoas até hoje. Quem vive às margens dos rios, nas ilhas e nas comunidades do Marajó mantém uma relação direta com esse passado, seja no cultivo do açaí, na pesca artesanal, no manejo da floresta ou no consumo consciente dos recursos naturais”, afirma.

Essa herança também permanece na língua tupi, ainda presente na fala dos paraenses. Está nas ruas que homenageiam os povos originários, nos nomes das cidades vizinhas como Marituba, e em palavras comuns do vocabulário local, como carapanã, usada para se referir ao pernilongo. São fragmentos linguísticos que resistem ao tempo e ajudam a preservar a memória ancestral.

A lição dos povos originários para o mundo

Durante a COP30, esses elementos históricos e culturais devem ganhar destaque. Para o historiador, há uma conexão simbólica e necessária entre o passado indígena e os debates sobre o futuro do planeta. “É poético: o passado ensina o presente. Os povos da floresta mostram que derrubar é a pior solução. Ensinaram que cuidar das águas e consumir de forma consciente é essencial para a sobrevivência. A sustentabilidade do planeta não está no futuro — está no passado, para nos guiar”, conclui Pinho.

Belém, que nasceu da sabedoria amazônica, se prepara agora para ser o centro das atenções mundiais em meio à crise climática. Mais do que um evento diplomático, a COP30 será um encontro entre o conhecimento ancestral dos povos originários e as inovações científicas do século XXI. Uma oportunidade para o mundo reconhecer que a floresta não é um problema a ser resolvido, mas uma lição viva de equilíbrio.

Aula aberta: Belém na COP30

Durante a programação da COP30, o historiador Michel Pinho oferecerá uma aula aberta gratuita, intitulada “Belém na COP30: passado, presente e futuro”, revisitando os marcos históricos da cidade. O percurso começará no Forte do Presépio, seguirá pelo Mercado Ver-o-Peso, Mercado Bolonha, Convento das Mercês, Boulevard da Gastronomia, Companhia das Docas do Pará e encerrará no Museu das Amazônias.

Serviço:
Aula Belém na COP30: passado, presente e futuro
📅 Quando: 16 de novembro, às 8h15
📍 Onde: Saída do Forte do Presépio, Belém (PA)

Fonte: Agência Brasil

Tags: amazôniaarqueologiaBelémCOP30cultura amazônicahistóriaMeio AmbienteMichel Pinhopovos indígenasSustentabilidadeTupinambás
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