Cais do Valongo — A Justiça Federal apresentou oficialmente o projeto Valongo: Justiça pela Memória do Cais, uma iniciativa robusta e multidisciplinar que busca ampliar o acesso público a conteúdos históricos e culturais sobre o Cais do Valongo, local emblemático da zona portuária do Rio de Janeiro e reconhecido como o maior porto escravagista do mundo. Entre os séculos 18 e 19, mais de 500 mil africanos escravizados desembarcaram naquele espaço, que marcou profundamente a formação econômica, social e cultural do Brasil.
A proposta reúne livro, galeria digital, podcast e exposição presencial, com o objetivo de preservar, difundir e estimular reflexões sobre o papel do Judiciário, da memória e da reparação histórica no enfrentamento das desigualdades estruturais herdadas da escravidão. Todo o conteúdo está acessível no site criado exclusivamente para o projeto, garantindo acesso democrático às produções.
Livro resgata a trajetória do Valongo e sua importância histórica
Um dos pilares da iniciativa é o livro Valongo: Justiça pela Memória do Cais, que narra, de forma detalhada, a trajetória do local desde sua construção, em 1811, até o reconhecimento internacional como Patrimônio Mundial da Unesco, em 2017. A obra, que reúne pesquisa histórica, documentação arqueológica, análises culturais e reflexões jurídicas, faz um mergulho profundo nos processos que transformaram o Valongo em um dos locais mais simbólicos da história da escravização no Atlântico.
O material pode ser baixado integralmente no site do projeto e é apresentado como um instrumento essencial para pesquisadores, educadores e cidadãos interessados na preservação da memória afro-brasileira.
Galeria digital convida à reflexão por meio das artes visuais
Outro destaque é a galeria digital, composta por aquarelas produzidas pela servidora Maria Clara Teixeira de Assis, da Assessoria de Comunicação Social do Conselho da Justiça Federal (Ascom/CJF). As obras dialogam com textos históricos que conduzem o público à reflexão sobre o passado escravocrata do país e o compromisso contemporâneo com a reparação histórica. A combinação entre arte e narrativa histórica cria um ambiente acessível e sensível para compreender a dimensão humana da escravização.
Podcast amplia o debate com especialistas
O projeto inclui ainda um podcast dividido em três episódios, com entrevistas de historiadores, antropólogos e representantes de instituições como a Procuradoria-Geral da República, o Instituto Cultural Palmares, a Defensoria Pública da União e o Instituto dos Pretos Novos. Os conteúdos apresentam diferentes perspectivas sobre a escravização, suas marcas ainda presentes na sociedade brasileira e o papel do Judiciário no combate às desigualdades.
Segundo o Conselho da Justiça Federal, o objetivo dessa série é construir uma narrativa aprofundada e plural, capaz de contextualizar historicamente os impactos da escravidão e reforçar a necessidade de políticas públicas voltadas à memória, à verdade e à reparação.
Exposição no CCJF marca presença física do projeto
Além das produções digitais, o Valongo: Justiça pela Memória do Cais conta com uma exposição que ficará em cartaz de 20 de novembro a 19 de dezembro na Galeria Cela do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), no centro do Rio de Janeiro. A visitação gratuita poderá ser feita de terça a domingo, das 11h às 19h, permitindo que o público tenha contato presencial com parte do material artístico e documental produzido pelo projeto.
Lançamento reforça compromisso institucional com a memória e a reparação
O evento de lançamento, realizado no dia 19, incluiu programação especial com debates e conferências voltadas ao papel do Judiciário na preservação da memória da escravização e na promoção de políticas reparatórias. Entre as atividades estiveram a aula magna “Memória da Escravização: o papel da Justiça Federal para a reparação histórica”, a palestra “O impacto do protocolo para julgamento com perspectiva racial na efetividade da Justiça” e a conferência “Escravização: o papel da Justiça Federal na preservação da memória e na garantia de reparação”.
Toda a transmissão está disponível no canal da Justiça Federal no YouTube.
Símbolo de dor, resistência e identidade afro-brasileira
Redescoberto em 2011, durante as obras do Porto Maravilha, o Cais do Valongo ganhou projeção internacional ao ser reconhecido pela Unesco em 2017 como Patrimônio Mundial. Em 2025, esse status foi ampliado com a sanção da Lei nº 15.203/2025, que o declarou patrimônio histórico-cultural afro-brasileiro essencial à identidade nacional.
Considerado um dos maiores símbolos da violência do sistema escravagista, o Valongo também é espaço de resistência e memória coletiva. É um marco da ancestralidade africana no Brasil e um ponto fundamental para compreender as raízes estruturais das desigualdades que ainda atingem a população negra.
O projeto da Justiça Federal busca justamente reafirmar o compromisso do Estado brasileiro com a memória, a justiça e a reparação, reconhecendo o passado para construir um futuro mais igualitário e consciente.
Fonte: Agência Brasil

