Como eternizou Dorival Caymmi (1914–2008) em seus versos dedicados ao mar, o dia 2 de fevereiro é uma data especial no calendário cultural e religioso brasileiro. Nesta segunda-feira, devotos, simpatizantes e curiosos celebram o Dia de Iemanjá, considerada a orixá mais popular do país, reverenciada como rainha do mar e das águas doces, cultuada tanto no Candomblé quanto na Umbanda. Mais do que uma manifestação de fé, a data se consolida como um importante evento cultural que reúne espiritualidade, memória histórica e ocupação simbólica dos espaços urbanos.
No Rio de Janeiro, moradores e turistas têm a oportunidade de participar de uma celebração histórica: os 50 anos do Presente para Iemanjá, evento organizado há cinco décadas pelo tradicional afoxé Filhos de Gandhi. A comemoração acontece na região conhecida como Pequena África, no bairro da Saúde, um território marcado pela herança africana, pela resistência cultural e pela formação das religiões afro-brasileiras na cidade.
A programação tem início com a concentração na Rua Camerino, nº 7/9, onde é realizado um ritual religioso conhecido como xirê, com cânticos, danças e saudações aos orixás. No local, além do momento espiritual, também é servido café da manhã gratuito, reforçando o caráter comunitário e acolhedor da celebração, aberta a pessoas de todas as crenças.
Após o ritual, um cortejo segue pelas ruas do centro em direção à Praça Mauá, na região portuária, espaço simbólico da história negra no Brasil. De lá, parte a embarcação responsável por levar ao mar as oferendas dedicadas a Iemanjá. Entre os presentes tradicionalmente oferecidos à orixá estão perfumes, sabonetes, flores brancas, champanhe e arroz doce, elementos que simbolizam respeito, gratidão e pedidos de proteção.
A cerimônia marítima é um dos momentos mais aguardados da festa e carrega forte simbolismo, representando a conexão direta entre os devotos e o mar, elemento central do culto a Iemanjá. Após a entrega das oferendas, a embarcação retorna à costa e a programação segue até a noite, com apresentações de música ao vivo e som mecânico, que se estendem até as 21h.
Além das atividades no centro da cidade, o Dia de Iemanjá também é celebrado no Arpoador, na zona sul do Rio de Janeiro, outro ponto tradicional das homenagens à orixá. Segundo os organizadores, a programação no local segue até as 22h e conta com 21 atrações musicais, além da participação de dezenas de casas de Umbanda e Candomblé, que levam seus rituais, cânticos e oferendas à beira-mar.
No Arpoador, o cortejo com as oferendas ocorre no período da tarde, com concentração a partir das 15h na altura da estátua de Tom Jobim e saída prevista para as 16h. A expectativa é de grande público, repetindo o sucesso de edições anteriores. No ano passado, mais de 25 mil pessoas participaram das celebrações, evidenciando a força e a popularidade do evento.
Esta edição tem um significado ainda mais especial por ser a primeira após o reconhecimento oficial da celebração como patrimônio cultural imaterial. O título reforça a importância do Dia de Iemanjá não apenas como manifestação religiosa, mas como expressão cultural que preserva saberes, práticas e identidades historicamente marginalizadas, agora valorizadas como parte fundamental da cultura brasileira.
Para organizadores e participantes, o reconhecimento representa um passo importante na luta contra a intolerância religiosa e na valorização das tradições afro-brasileiras. Ao ocupar ruas, praças e o mar com música, fé e memória, a celebração reafirma o direito à diversidade cultural e religiosa, transformando o Dia de Iemanjá em um grande ato coletivo de devoção, resistência e celebração da ancestralidade.
Fonte : Agência Brasil

