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Estudo mostra que graphic novels fortalecem educação antirracista na formação de professores

Pesquisa da UFF aponta que histórias em quadrinhos ampliam o debate étnico-racial e ajudam a preparar futuros docentes para enfrentar o racismo no cotidiano escolar

25/02/2026
© Jean Barreto/ Divulgação

© Jean Barreto/ Divulgação

Fã de histórias em quadrinhos desde a infância, a doutoranda e professora Fernanda Pereira da Silva desenvolveu uma pesquisa que reforça o potencial pedagógico das graphic novels na formação de professores comprometidos com a educação antirracista. O estudo foi realizado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense e demonstra como esse formato narrativo pode estimular reflexões profundas sobre questões étnico-raciais, especialmente entre futuros docentes do Curso Normal.

As graphic novels se diferenciam das histórias em quadrinhos tradicionais por apresentarem narrativas mais longas, com histórias completas e maior densidade textual e visual. Segundo Fernanda, esse formato permite abordar temas complexos de maneira acessível e envolvente, criando pontes entre a experiência cotidiana dos estudantes e debates estruturais sobre racismo, identidade e desigualdade.

Até o mestrado, quando pesquisou relações étnico-raciais a partir da representação de heróis negros nas HQs, Fernanda relata que nunca havia se debruçado de forma crítica sobre o racismo. “Me senti uma ignorante, porque nunca tinha parado para tratar de questões raciais. A questão é de todo mundo, independentemente da cor da pele”, afirmou em entrevista à Agência Brasil. A partir dessa constatação pessoal, surgiu a convicção de que as HQs poderiam atrair mais pessoas para essa discussão, inclusive aquelas que, como ela própria, não haviam refletido profundamente sobre o tema.

O interesse pelo doutorado se consolidou em 2018, quando o governo federal incluiu HQs protagonizadas por personagens negros no Programa Nacional do Livro e do Material Didático. Obras como Carolina, Cumbe e Angola Janga despertaram em Fernanda a percepção de que as graphic novels poderiam ser ferramentas eficazes para inserir o debate antirracista na formação inicial de professores do ensino fundamental. “Vi a importância de trabalhar isso desde a formação inicial, para que esses professores se sintam estimulados a continuar o debate ao longo de toda a carreira”, explicou.

A tese, intitulada Cotidiano, escola e Graphic Novel: o papel da mídia no fortalecimento da Educação para Relações Étnico-Raciais, foi orientada pela professora Walcéa Barreto Alves, da Faculdade de Educação da UFF. O trabalho alia fundamentação teórica consistente a uma forte dimensão empírica, resultado de um amplo trabalho de campo realizado no Colégio Estadual Júlia Kubitschek.

Realidade escolar e lacunas no debate racial

Durante a pesquisa de campo, Fernanda acompanhou turmas do segundo ano do ensino médio, em um contexto no qual cerca de 95% dos estudantes se autodeclaravam negros. A investigação revelou que o tema do racismo costuma ser tratado de forma pontual nas escolas, concentrado quase exclusivamente no mês de novembro, durante as atividades relacionadas ao Dia da Consciência Negra. No restante do ano letivo, o assunto praticamente desaparece do planejamento escolar, apesar de os alunos relatarem vivências constantes de discriminação e preconceito.

Outro dado preocupante destacado na pesquisa é o baixo cumprimento da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana nas escolas públicas e privadas. Segundo levantamento do Geledés Instituto da Mulher Negra e do Instituto Alana, a legislação não é aplicada em 71% dos municípios brasileiros. Um dos principais argumentos apresentados por professores para essa lacuna é a suposta complexidade ou “polêmica” do tema — percepção que Fernanda contesta. “Não é polêmico. Faz parte da nossa história”, defende.

Para a pesquisadora, as HQs oferecem caminhos criativos para trabalhar a temática racial. Entre os exemplos citados está a possibilidade de apresentar aos estudantes a trajetória da escritora Carolina Maria de Jesus por meio de graphic novels, usando sua história de vida como ponto de partida para discutir racismo, desigualdade social e resistência.

Abordagem interventiva e impacto formativo

A professora Walcéa Barreto Alves ressalta que o diferencial da pesquisa está na dimensão interventiva. Em vez de se limitar à análise teórica, Fernanda promoveu atividades práticas com os estudantes, permitindo que eles tivessem contato direto com as graphic novels e refletissem sobre possíveis desdobramentos pedagógicos desse material em sua futura atuação docente. “Ela pôde observar o cotidiano desses jovens e perceber que o debate racial não acontecia de forma contínua”, afirmou a orientadora.

A partir de entrevistas e questionários, a pesquisa evidenciou que os estudantes vivenciam situações de racismo tanto fora quanto dentro da escola. A proposta de Fernanda, ao introduzir as graphic novels, foi justamente oferecer instrumentos para que esses futuros professores se sintam mais preparados para lidar com essas questões em sala de aula, promovendo uma educação mais inclusiva e crítica.

Walcéa também destacou a importância de valorizar o protagonismo negro nas narrativas. “Em muitos materiais didáticos, personagens negros aparecem apenas como coadjuvantes. O que a tese propõe é uma perspectiva decolonial, que reconheça lideranças e identidades negras de forma positiva”, afirmou.

Ferramenta pedagógica potente

Na avaliação da orientadora, as HQs e graphic novels são ferramentas valiosas porque combinam leveza e profundidade. Os recursos visuais facilitam a leitura e a compreensão, ao mesmo tempo em que permitem discutir temas complexos e levantar questões paralelas à narrativa principal. “Elas funcionam para crianças, adolescentes e adultos, e podem ser usadas em qualquer disciplina”, ressaltou.

A pesquisa conclui que ampliar o acesso a esse tipo de material e incorporá-lo ao planejamento escolar pode fortalecer o debate étnico-racial desde os anos iniciais da educação básica. Para Fernanda, a educação antirracista ganha força quando dialoga com linguagens próximas do cotidiano dos estudantes, capazes de provocar identificação, empatia e reflexão crítica.

Fonte : Agência Brasil

Tags: #educacaoantirracismoformação de professoreshistórias em quadrinhosrelações étnico-raciais
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