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Fim da “tarja preta” na reposição hormonal marca nova era no tratamento da menopausa

Para a endocrinologista Milene Guirado, a decisão da FDA sinaliza mudança global na forma de tratar a menopausa, além dos seus impactos físicos e emocionais

08/03/2026
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A agência reguladora dos Estados Unidos, Food and Drug Administration (FDA), anunciou a retirada do aviso de “tarja preta” dos medicamentos de terapia de reposição hormonal (TRH) utilizados no tratamento da menopausa. A decisão representa um marco importante na medicina e pode transformar a forma como milhões de mulheres encaram essa fase da vida, historicamente associada a sofrimento físico, emocional e a receios relacionados à segurança do tratamento.

Para a endocrinologista Milene Guirado, a mudança traz um impacto direto na prática clínica e, principalmente, na vida das pacientes. “Essa decisão significa que milhares de mulheres poderão atravessar a menopausa de forma digna, recebendo tratamento para sintomas reais, físicos e mentais, que por muito tempo foram minimizados ou tratados como frescura”, afirma.

Durante décadas, a terapia hormonal foi associada a um risco aumentado de câncer de mama e eventos cardiovasculares, como infarto, AVC e trombose. Esse temor teve origem, principalmente, em grandes estudos realizados nos anos 1990 e início dos anos 2000. “Houve um estudo chamado HERS, que avaliou mulheres com doença cardiovascular prévia, e depois o famoso WHI, que acabou gerando um alarme enorme. A forma como esses dados foram divulgados pela mídia contribuiu para criar um medo generalizado, inclusive entre médicos”, explica Milene.

O estudo WHI (Women’s Health Initiative), que avaliou mais de 16 mil mulheres, chegou a interromper alguns de seus braços antes do previsto por observar aumento de determinados riscos em grupos específicos. No entanto, revisões posteriores trouxeram uma leitura mais cuidadosa dos dados.

“Quando os pesquisadores reavaliaram os resultados, estratificando corretamente idade, tempo de menopausa e comorbidades, perceberam que muitos riscos haviam sido superestimados. Em alguns grupos, os efeitos eram, inclusive, protetores”, destaca a endocrinologista.

Outro ponto fundamental foi a evolução dos próprios medicamentos. “No WHI, utilizavam-se estrogênios conjugados derivados da urina de égua prenha e progesteronas sintéticas, muito diferentes das opções modernas que temos hoje. Além disso, hoje entendemos melhor as vias de administração, doses e perfis ideais para cada paciente”, ressalta Milene Guirado.

Segundo a especialista, após o medo instaurado, muitas mulheres interromperam ou deixaram de iniciar a TRH, o que gerou consequências importantes. “O que se observou depois foi um aumento significativo de eventos cardiovasculares e osteoporose nessa população. Isso motivou uma reavaliação profunda dos estudos e levou a essa verdadeira reviravolta na terapia hormonal”, explica.

Com a retirada da tarja preta, a expectativa é de que haja uma mudança gradual na percepção das mulheres em relação ao tratamento. “Essa geração cresceu ouvindo que reposição hormonal causava câncer e infarto. Mudar essa crença leva tempo. Mas uma nova geração de mulheres e de médicos está chegando, e esse medo tende a ficar para trás”, avalia.

Benefícios da terapia hormonal

Hoje, os benefícios da terapia de reposição hormonal são amplamente documentados. Entre eles estão a melhora dos sintomas vasomotores, proteção óssea contra osteoporose, melhora do humor, da memória, do sono, da disposição, da libido, da pele e dos cabelos, além de efeitos metabólicos positivos. “A menopausa provoca alterações que aumentam o risco cardiovascular. A TRH, quando bem indicada, pode atuar como fator protetor”, afirma a endocrinologista.

Apesar da decisão da FDA valer oficialmente apenas para os Estados Unidos, Milene acredita que o impacto será global. “É apenas uma questão de tempo para que isso se reflita em outros países, inclusive no Brasil. Evidências científicas não faltam mostrando que a TRH é segura e traz benefícios inquestionáveis quando bem indicada”, pontua.

Na prática clínica, ela reforça que o cuidado começa antes da prescrição. “É fundamental diferenciar se a mulher está na menopausa ou na transição menopausal, porque os tratamentos são diferentes. Um erro nessa avaliação pode piorar muito os sintomas”, alerta. Avaliação clínica detalhada, análise do histórico familiar, estilo de vida, idade, tempo de menopausa e exames laboratoriais e de imagem fazem parte do processo.

Mesmo com a retirada do alerta, ainda existem contraindicações. “Como qualquer medicação, a TRH não é para todas. Mulheres com histórico cardiovascular muito grave podem precisar de estratégias alternativas. O tratamento precisa ser sempre individualizado”, reforça.

A personalização, segundo Milene, é um dos pilares da segurança atual da terapia hormonal. “Não somos iguais. Dose, tipo de hormônio e via de administração precisam ser ajustados para cada mulher. Esse cuidado faz toda a diferença na eficácia e na segurança do tratamento”, explica.

Para as mulheres que ainda têm receio, a endocrinologista deixa uma mensagem clara: “Hoje sabemos que a reposição hormonal é segura, eficaz e pode transformar a qualidade de vida. Informação, acompanhamento médico e personalização são as chaves para que a mulher volte a se sentir no controle do próprio corpo e da própria vida”.

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