Pesquisadoras da Universidade Federal Fluminense desenvolveram uma iniciativa inovadora para estimular o debate sobre desigualdade de gênero e o chamado trabalho de cuidado — atividades essenciais, como cuidar da casa, de crianças e de idosos, que muitas vezes não são reconhecidas ou remuneradas. O projeto resultou no “Jogo do Cuidado – Um Jogo sobre o Direito à Cidade das Mulheres”, uma ferramenta pedagógica gratuita voltada principalmente para estudantes do ensino médio.
A proposta une educação, pesquisa e ludicidade para abordar temas complexos de forma acessível. O material pode ser baixado e impresso gratuitamente, permitindo que escolas, professores e estudantes tenham acesso facilitado ao conteúdo.
Pesquisa acadêmica como ponto de partida
O jogo surgiu a partir de um projeto de pesquisa coordenado pela professora Rossana Brandão Tavares, que investiga o conceito de direito à cidade sob a perspectiva da reprodução social. O estudo analisa como fatores como renda, gênero, raça e idade influenciam o acesso a oportunidades e a qualidade de vida nos espaços urbanos.
A ideia de transformar esse conteúdo acadêmico em uma ferramenta pedagógica nasceu de uma demanda concreta. Segundo a estudante Beatriz Corbacho, bolsista de iniciação científica, o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio 2023 — que abordou a invisibilidade do trabalho de cuidado no Brasil — foi um fator decisivo.
De acordo com ela, a equipe percebeu a necessidade de criar um recurso didático que facilitasse o debate em sala de aula, de forma dinâmica e interativa. A intenção era aproximar os estudantes de questões sociais relevantes, utilizando uma linguagem acessível e envolvente.
Dinâmica do jogo e aprendizado na prática
O “Jogo do Cuidado” se diferencia por transformar conceitos teóricos em experiências práticas. No tabuleiro, os jogadores assumem diferentes personagens, cada um representando grupos sociais diversos, com características específicas de classe, raça e gênero.
Durante a partida, os participantes enfrentam situações relacionadas ao cotidiano urbano, como mobilidade, acesso a serviços, trabalho e responsabilidades de cuidado. Essas experiências simuladas evidenciam como as desigualdades sociais impactam de maneira diferente a vida das pessoas.
A estudante Mariana Pio explica que o tabuleiro é inspirado em uma cartografia da região portuária do Rio de Janeiro, com dez bairros representados. Cada personagem está inserido em um desses territórios, refletindo realidades socioeconômicas distintas.
Outro diferencial do jogo é o sistema de moedas. Existem dois tipos: o “dinheiro do cuidado” e o “dinheiro do capital econômico”. Ao contrário do que ocorre na vida real, o jogo valoriza o cuidado como principal recurso — vence quem acumular mais capital de cuidado, incentivando uma reflexão crítica sobre o tema.
Temas abordados e diversidade de experiências
Ao longo da partida, são discutidos temas como rotina diária, acessibilidade, direitos coletivos e mobilidade urbana. A diversidade dos personagens permite que os jogadores compreendam como diferentes identidades sociais influenciam a experiência dentro de uma mesma cidade.
A proposta é evidenciar que o espaço urbano não é vivido de forma igual por todos. Mulheres, especialmente aquelas em situação de vulnerabilidade social, enfrentam desafios adicionais relacionados à sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidado.
Acesso gratuito e impacto educacional
Diante da repercussão positiva do projeto, as pesquisadoras decidiram ampliar o acesso ao jogo. Segundo Rossana Brandão Tavares, a equipe conseguiu produzir apenas um número limitado de versões físicas inicialmente. No entanto, o interesse crescente levou à criação de uma plataforma online.
Agora, qualquer pessoa ou instituição pode acessar o jogo, fazer o download e imprimir sua própria versão. O material inclui não apenas o tabuleiro, mas também um manual com orientações e sugestões de atividades para uso em sala de aula.
Essa democratização do acesso reforça o potencial do projeto como ferramenta educacional em diferentes contextos, contribuindo para a formação crítica dos estudantes.
Reconhecimento e continuidade do projeto
O “Jogo do Cuidado” é resultado de uma iniciativa da Escola de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação da UFF, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, por meio do programa Jovem Cientista do Nosso Estado.
Inicialmente pensado para atender escolas do estado do Rio de Janeiro, o projeto ganhou proporções maiores e hoje pode ser utilizado em todo o país.
A iniciativa demonstra como a pesquisa acadêmica pode gerar impactos concretos na sociedade, especialmente quando aliada à educação. Ao transformar dados e análises em uma experiência interativa, o jogo contribui para ampliar o debate sobre desigualdade de gênero e o reconhecimento do trabalho de cuidado.
Mais do que uma ferramenta pedagógica, o “Jogo do Cuidado” se consolida como um instrumento de conscientização social, incentivando reflexões que ultrapassam os limites da sala de aula.
Fonte : Agência Brasil

