A produção de lúpulo no Brasil começa a ganhar força como uma nova aposta estratégica para o agronegócio nacional. Pesquisadores do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) lideram um projeto que pretende transformar a cadeia produtiva da planta no país e posicionar o Brasil entre os principais polos mundiais de cultivo em regiões tropicais.
Essencial para a fabricação de cerveja, o lúpulo é responsável por características como aroma, amargor e estabilidade da bebida. Além da indústria cervejeira, a planta também possui aplicações nos setores farmacêutico, cosmético, alimentício e de produção de etanol, ampliando o potencial econômico da cultura.
Atualmente, grande parte do lúpulo utilizado no mercado brasileiro é importada de países de clima frio, como Estados Unidos e Alemanha. Nessas regiões, as condições climáticas permitem apenas uma safra anual. Já no Brasil, pesquisadores acreditam que o clima tropical pode se tornar uma vantagem competitiva, desde que aliado ao uso de tecnologia e manejo adequado.
O projeto é desenvolvido no Centro Avançado em Sustentabilidade, Ecossistemas Locais e Governança (Casulo), ligado à Coppe/UFRJ. A proposta busca repetir o sucesso alcançado pelo país em culturas como soja e trigo, que foram adaptadas às condições brasileiras e se tornaram referências internacionais em produtividade.
Segundo a coordenadora do projeto, Amanda Xavier, do Programa de Engenharia de Produção da Coppe, a iniciativa pretende estruturar uma cadeia produtiva completa para o lúpulo no Brasil.
“Estamos falando de desenvolver toda uma estrutura produtiva nacional, desde o cultivo até o processamento industrial, incluindo agricultura de precisão, rastreabilidade e controle laboratorial”, explicou a pesquisadora.
A iniciativa também envolve parceria com a Associação Brasileira do Lúpulo (Aprolúpulo), responsável pela elaboração do Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, documento lançado em março deste ano e considerado estratégico para orientar investimentos, pesquisas e políticas públicas voltadas ao setor.
O levantamento reúne dados sobre áreas de cultivo, capacidade produtiva, desafios técnicos e regiões com potencial de expansão. A expectativa é que essas informações ajudem produtores e investidores a identificar oportunidades para crescimento sustentável da atividade.
Além da produção agrícola, o projeto também mira o desenvolvimento industrial de extratos de lúpulo, considerados produtos de alto valor agregado. Esses extratos são obtidos por meio de tecnologias avançadas de extração com dióxido de carbono (CO₂), permitindo maior padronização e controle de qualidade.
De acordo com Amanda Xavier, a utilização de agricultura de precisão e monitoramento laboratorial pode permitir ao Brasil fornecer extratos destinados tanto a cervejarias artesanais quanto a grandes indústrias farmacêuticas e cosméticas.
A definição das regiões que receberão investimentos e infraestrutura será um dos pontos centrais da iniciativa. A ideia é criar polos de conhecimento, inovação e produção capazes de impulsionar o desenvolvimento regional e gerar empregos qualificados.
Para os pesquisadores, o projeto vai além do cultivo agrícola. A intenção é criar um ecossistema produtivo integrado, conectando universidades, produtores, indústria e mercado consumidor.
A professora destaca que o Mapa do Lúpulo Brasileiro já começa a orientar decisões estratégicas relacionadas à instalação de áreas de cultivo e à necessidade de infraestrutura logística e tecnológica.
“Os dados ajudam a direcionar pesquisas de melhoramento genético e desenvolvimento de protocolos específicos para o clima tropical brasileiro”, afirmou.
Uma das maiores vantagens competitivas do Brasil está justamente na possibilidade de ampliar o número de safras anuais. Enquanto países de clima frio conseguem colher apenas uma vez por ano, estudos recentes indicam que, com suplementação luminosa e técnicas modernas de manejo, o Brasil pode alcançar até 2,5 safras anuais.
Esse fator pode aumentar significativamente a produtividade nacional e reduzir custos de produção, tornando o país mais competitivo no mercado internacional.
Os números do setor mostram o tamanho do potencial econômico. Em 2024, a produção mundial de lúpulo alcançou cerca de 114 mil toneladas. No mesmo período, o Brasil produziu apenas 81 toneladas, enquanto a demanda interna girou em torno de 7 mil toneladas.
O mercado brasileiro movimenta aproximadamente R$ 878 milhões por ano, mas a produção nacional atende apenas 1,11% do consumo interno. Isso evidencia a forte dependência de importações e o amplo espaço para expansão da produção doméstica.
Com o avanço das pesquisas e da tecnologia, especialistas acreditam que o Brasil poderá reduzir gradualmente essa dependência externa e fortalecer sua indústria cervejeira, especialmente o segmento artesanal, que cresce de forma acelerada no país.
Outro impacto esperado é a geração de novos negócios ligados à bioeconomia e à inovação agrícola. A produção nacional de lúpulo pode estimular o desenvolvimento de startups, laboratórios, centros de pesquisa e cadeias industriais voltadas à transformação da matéria-prima.
Pesquisas conduzidas pela Embrapa também vêm contribuindo para o avanço do cultivo tropical da planta, reforçando o potencial brasileiro de se tornar referência internacional no setor.
Para os pesquisadores da Coppe/UFRJ, o sucesso da iniciativa dependerá da integração entre ciência, mercado e políticas públicas. A meta é construir uma cadeia produtiva sustentável, tecnologicamente avançada e economicamente competitiva, capaz de colocar o Brasil em posição de destaque no mercado global de lúpulo.
Fonte : Agência Brasil

