Aposentadas, donas de casa e trabalhadoras que adiaram os estudos para cuidar da família encontram em pré-vestibulares de baixo custo a chance de disputar uma vaga na universidade
Cursos populares para o Enem estão ajudando mulheres que precisaram interromper os estudos a retomar um sonho antigo: entrar na universidade. Aposentadas, donas de casa e trabalhadoras que dedicaram a juventude aos filhos e ao trabalho estão voltando às salas de aula em pré-vestibulares de baixo custo, e muitas delas estão entre os milhões de candidatos que fazem a primeira prova do Exame Nacional do Ensino Médio neste domingo (8).
Um dos exemplos dessa transformação está no Rio de Janeiro. No pré-vestibular social mantido pelo Sindicato dos Servidores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Sintuperj), no campus Maracanã da Uerj, mulheres mais velhas já representam entre 20% e 30% dos alunos, segundo a coordenação administrativa do curso. São estudantes que chegam com uma bagagem de vida enorme e uma vontade ainda maior de recuperar o tempo dedicado aos outros.
Aos 72 anos, a meta é o Serviço Social
Zélia José dos Santos tem 72 anos, é dona de casa e quer cursar Serviço Social. Ela já fez o Enem em vários anos, mas em 2026 decidiu se preparar de forma mais estruturada e se matriculou no pré-vestibular do Sintuperj. Zélia conta que não teve a oportunidade de estudar quando era jovem porque precisava criar os filhos e trabalhar fora de casa.
A história dela é parecida com a de muitas brasileiras. Durante décadas, a responsabilidade pelo cuidado com a família recaiu sobre as mulheres, que muitas vezes abriram mão da própria formação. Agora, com os filhos criados e mais tempo disponível, elas encontram nos cursinhos populares um espaço acolhedor para voltar a estudar sem se sentir deslocadas.
De técnica de enfermagem a futura médica
Outra aluna do curso é Paula Cristina dos Santos, de 55 anos. Técnica de enfermagem, ela foi mãe ainda na adolescência e precisou adiar os planos de fazer faculdade. Paula já alcançou uma nota que lhe garantiria uma vaga em Fisioterapia, mas decidiu mirar mais alto: quer cursar Medicina. Para ela, nunca é tarde para sonhar, e a dedicação aos estudos é a prova disso.
Histórias como as de Zélia e Paula mostram que a educação não tem prazo de validade. Cada aluna que volta à sala de aula também inspira filhos, netos, vizinhos e colegas de trabalho a acreditar que é possível recomeçar.
Mensalidade acessível e bolsas integrais
Um dos diferenciais dos cursos populares é o custo. No pré-vestibular do Sintuperj, a mensalidade é de R$ 162 para o público em geral, com desconto de 10% para servidores da Uerj. Estudantes em situação de vulnerabilidade social recebem bolsa integral.
O apoio vai além da sala de aula. O curso oferece acompanhamento psicossocial e distribui cestas básicas, arrecadadas em eventos mensais chamados de “aulões”. A iniciativa reconhece que, para muitos alunos, as dificuldades do dia a dia podem pesar tanto quanto o conteúdo das provas.
Autocuidado para quem ficou longe dos livros
De acordo com a coordenadora pedagógica Raíssa Tabajara, o curso também oferece aulas de autocuidado e projetos externos pensados para quem passou muito tempo afastado dos estudos. A proposta é ajudar os alunos a recuperar a confiança, organizar a rotina e lidar com a ansiedade típica da preparação para o vestibular.
Esse olhar mais humano faz diferença. Para quem não pegava em um livro didático havia décadas, voltar a estudar matemática, química ou gramática pode ser intimidador. O acolhimento transforma o medo em motivação.
Redação conectada aos temas do momento
O primeiro dia do Enem reúne 90 questões de múltipla escolha de Linguagens e Ciências Humanas, além da redação. Na preparação para o texto dissertativo, a professora Érika Rodrigues reforça a importância da coerência e orienta os alunos a conectar as referências culturais aos argumentos apresentados. Neste ano, o curso deu atenção especial a temas ligados à tecnologia e à desinformação.
Quase três décadas abrindo portas
O pré-vestibular do Sintuperj foi criado em 1998 por um grupo de servidores da universidade. Com o tempo, passou a atender também a comunidade externa e já ajudou mais de 2 mil estudantes a conquistar vagas em universidades públicas federais e na própria Uerj.
Iniciativas como essa mostram a força da sociedade civil organizada na promoção da igualdade de oportunidades. Ao unir professores comprometidos, mensalidades acessíveis e uma rede de apoio, os cursos populares para o Enem ajudam a corrigir desigualdades históricas e devolvem a muitas pessoas o direito de sonhar com o diploma.
Uma lição para todas as idades
Neste domingo, quando os portões se fecharem e os candidatos abrirem o caderno de questões, entre eles estarão mulheres que passaram a vida cuidando de todos e que, finalmente, estão cuidando de si mesmas e do próprio futuro. Independentemente do resultado, elas já venceram uma etapa importante: a decisão de recomeçar.
A mensagem que fica é simples e poderosa. Não importa a idade, a profissão ou o tempo afastado da escola: com apoio, persistência e oportunidades, sempre é possível voltar a aprender e transformar a própria história.
Foto de destaque: Tomaz Silva/Agência Brasil
Fonte: Agência Brasil

