Os ateliês terapêuticos de Nise da Silveira completam 80 anos neste mês de maio e seguem como um dos maiores símbolos da transformação da saúde mental no Brasil. Criados em 1946 pela médica psiquiatra alagoana, os espaços revolucionaram a forma de tratamento psiquiátrico ao substituir métodos violentos, como eletrochoques, isolamento e lobotomia, por atividades artísticas, acolhimento e valorização da expressão humana.
Hoje, os ateliês fazem parte do Museu de Imagens do Inconsciente (MII), localizado no bairro Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro, e continuam funcionando como referência nacional e internacional em práticas terapêuticas humanizadas.
A proposta criada por Nise da Silveira marcou uma ruptura histórica em um período em que a psiquiatria tradicional utilizava intervenções consideradas extremamente agressivas. Ao apostar na arte como instrumento terapêutico, a médica abriu espaço para novas formas de cuidado baseadas na escuta, na criatividade e no respeito à dignidade dos pacientes.
Atualmente, o Museu de Imagens do Inconsciente abriga o maior acervo do mundo relacionado à produção artística de pacientes psiquiátricos, reunindo mais de 400 mil obras. Desse total, cerca de 128 mil peças são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reforçando a importância cultural e científica do trabalho iniciado há oito décadas.
Nascida em Maceió, em 1905, Nise da Silveira ficou conhecida internacionalmente pela defesa de um modelo de saúde mental mais humano e sensível. Ela morreu em 1999, no Rio de Janeiro, mas suas ideias continuam influenciando profissionais da psicologia, psiquiatria, terapia ocupacional e áreas ligadas às humanidades.
Os ateliês terapêuticos seguem ativos e acolhem pessoas que enfrentam dificuldades emocionais e psíquicas. Segundo o coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, Eurípedes Junior, o objetivo continua sendo oferecer um espaço de cuidado e reconstrução pessoal.
“São pessoas que atravessam sofrimentos temporários ou permanentes e que encontram nesses espaços uma oportunidade de expressão e acolhimento”, explicou.
Além da função terapêutica, o trabalho desenvolvido no museu também é objeto de pesquisa científica. As produções artísticas ajudam especialistas a compreender melhor os processos psíquicos e emocionais do ser humano, ampliando estudos sobre imaginário, subjetividade e saúde mental.
Atualmente, cerca de 55 pessoas frequentam regularmente os ateliês do museu. A coordenadora das atividades terapêuticas, a psicóloga Adriana Lemos, destaca que os resultados vão muito além da melhora clínica.
Segundo ela, alguns participantes conseguiram ingressar no ensino superior neste ano, cursando áreas como museologia, pedagogia e filosofia em instituições públicas do Rio de Janeiro.
“O trabalho realizado aqui ajuda essas pessoas a reconstruírem vínculos familiares, fortalecerem a autoestima e ampliarem sua participação social”, afirmou.
Hoje, o MII conta com sete modalidades de ateliês terapêuticos, incluindo pintura, cerâmica, teatro, ritmologia, corpo e movimento, atividades plásticas e rodas de conversa voltadas para mulheres.
Um dos diferenciais do método de Nise é justamente permitir que os próprios participantes escolham livremente as atividades com as quais mais se identificam. A ideia é que o processo terapêutico aconteça de maneira espontânea, respeitando a individualidade de cada pessoa.
“Não é o profissional que determina onde o paciente deve estar. Ele escolhe a atividade que deseja frequentar e, a partir dessa experiência, construímos a relação terapêutica”, explicou Adriana Lemos.
Outro aspecto importante destacado pelos profissionais é o fato de o museu tratar os participantes como “clientes”, termo utilizado pela própria Nise da Silveira para evitar a visão passiva e estigmatizada associada ao conceito tradicional de paciente psiquiátrico.
O impacto do trabalho desenvolvido nos ateliês também se estende a outras instituições. Diversos centros de atenção psicossocial e unidades de saúde mental no Brasil passaram a adotar modelos inspirados na metodologia criada por Nise.
No Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), por exemplo, oficinas artísticas seguem princípios semelhantes. O diretor-geral da unidade, Francisco Sayão, afirma que o protagonismo do indivíduo é um dos pilares centrais desse modelo terapêutico.
Entre os artistas que frequentam os ateliês está Israel Alves Correia, conhecido pelas esculturas de dragões produzidas com materiais recicláveis e massa epóxi. O trabalho artesanal ganhou reconhecimento dentro da instituição e se tornou símbolo da potência criativa estimulada pelas oficinas.
A terapeuta ocupacional Eni Nascimento define os ateliês como espaços de “ancoragem emocional”.
“O fazer artístico permite que a pessoa transite entre sofrimento e equilíbrio de forma mais segura. Muitas vezes, é nesse espaço que ela consegue reconstruir sentidos para a própria vida”, destacou.
As comemorações pelos 80 anos dos ateliês terapêuticos acontecem ao longo de todo o ano. A programação começou durante a 24ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), e inclui exposições, fóruns científicos, oficinas abertas ao público, documentários e atividades culturais gratuitas.
Entre os destaques está o fórum “A Emoção de Lidar”, expressão criada por Nise da Silveira para definir seu método terapêutico baseado na sensibilidade, no afeto e na liberdade de expressão.
O Museu de Imagens do Inconsciente também trabalha na internacionalização da obra da psiquiatra, com projetos de tradução de livros para inglês, francês e espanhol, além de parcerias com instituições estrangeiras interessadas em implantar modelos semelhantes de cuidado em saúde mental.
O objetivo, segundo os organizadores, é ampliar o reconhecimento acadêmico e científico das ideias de Nise da Silveira, fortalecendo seu legado para as futuras gerações.
Fonte : Agência Brasil

