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80 anos dos ateliês de Nise da Silveira reforçam legado humanizado da saúde mental no Brasil

Museu de Imagens do Inconsciente celebra trajetória revolucionária que substituiu práticas agressivas da psiquiatria por arte, acolhimento e expressão criativa

18/05/2026
© CPRJ/Divulgação

© CPRJ/Divulgação

Os ateliês terapêuticos de Nise da Silveira completam 80 anos neste mês de maio e seguem como um dos maiores símbolos da transformação da saúde mental no Brasil. Criados em 1946 pela médica psiquiatra alagoana, os espaços revolucionaram a forma de tratamento psiquiátrico ao substituir métodos violentos, como eletrochoques, isolamento e lobotomia, por atividades artísticas, acolhimento e valorização da expressão humana.

Hoje, os ateliês fazem parte do Museu de Imagens do Inconsciente (MII), localizado no bairro Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro, e continuam funcionando como referência nacional e internacional em práticas terapêuticas humanizadas.

A proposta criada por Nise da Silveira marcou uma ruptura histórica em um período em que a psiquiatria tradicional utilizava intervenções consideradas extremamente agressivas. Ao apostar na arte como instrumento terapêutico, a médica abriu espaço para novas formas de cuidado baseadas na escuta, na criatividade e no respeito à dignidade dos pacientes.

Atualmente, o Museu de Imagens do Inconsciente abriga o maior acervo do mundo relacionado à produção artística de pacientes psiquiátricos, reunindo mais de 400 mil obras. Desse total, cerca de 128 mil peças são tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reforçando a importância cultural e científica do trabalho iniciado há oito décadas.

Nascida em Maceió, em 1905, Nise da Silveira ficou conhecida internacionalmente pela defesa de um modelo de saúde mental mais humano e sensível. Ela morreu em 1999, no Rio de Janeiro, mas suas ideias continuam influenciando profissionais da psicologia, psiquiatria, terapia ocupacional e áreas ligadas às humanidades.

Os ateliês terapêuticos seguem ativos e acolhem pessoas que enfrentam dificuldades emocionais e psíquicas. Segundo o coordenador de projetos da Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente, Eurípedes Junior, o objetivo continua sendo oferecer um espaço de cuidado e reconstrução pessoal.

“São pessoas que atravessam sofrimentos temporários ou permanentes e que encontram nesses espaços uma oportunidade de expressão e acolhimento”, explicou.

Além da função terapêutica, o trabalho desenvolvido no museu também é objeto de pesquisa científica. As produções artísticas ajudam especialistas a compreender melhor os processos psíquicos e emocionais do ser humano, ampliando estudos sobre imaginário, subjetividade e saúde mental.

Atualmente, cerca de 55 pessoas frequentam regularmente os ateliês do museu. A coordenadora das atividades terapêuticas, a psicóloga Adriana Lemos, destaca que os resultados vão muito além da melhora clínica.

Segundo ela, alguns participantes conseguiram ingressar no ensino superior neste ano, cursando áreas como museologia, pedagogia e filosofia em instituições públicas do Rio de Janeiro.

“O trabalho realizado aqui ajuda essas pessoas a reconstruírem vínculos familiares, fortalecerem a autoestima e ampliarem sua participação social”, afirmou.

Hoje, o MII conta com sete modalidades de ateliês terapêuticos, incluindo pintura, cerâmica, teatro, ritmologia, corpo e movimento, atividades plásticas e rodas de conversa voltadas para mulheres.

Um dos diferenciais do método de Nise é justamente permitir que os próprios participantes escolham livremente as atividades com as quais mais se identificam. A ideia é que o processo terapêutico aconteça de maneira espontânea, respeitando a individualidade de cada pessoa.

“Não é o profissional que determina onde o paciente deve estar. Ele escolhe a atividade que deseja frequentar e, a partir dessa experiência, construímos a relação terapêutica”, explicou Adriana Lemos.

Outro aspecto importante destacado pelos profissionais é o fato de o museu tratar os participantes como “clientes”, termo utilizado pela própria Nise da Silveira para evitar a visão passiva e estigmatizada associada ao conceito tradicional de paciente psiquiátrico.

O impacto do trabalho desenvolvido nos ateliês também se estende a outras instituições. Diversos centros de atenção psicossocial e unidades de saúde mental no Brasil passaram a adotar modelos inspirados na metodologia criada por Nise.

No Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), por exemplo, oficinas artísticas seguem princípios semelhantes. O diretor-geral da unidade, Francisco Sayão, afirma que o protagonismo do indivíduo é um dos pilares centrais desse modelo terapêutico.

Entre os artistas que frequentam os ateliês está Israel Alves Correia, conhecido pelas esculturas de dragões produzidas com materiais recicláveis e massa epóxi. O trabalho artesanal ganhou reconhecimento dentro da instituição e se tornou símbolo da potência criativa estimulada pelas oficinas.

A terapeuta ocupacional Eni Nascimento define os ateliês como espaços de “ancoragem emocional”.

“O fazer artístico permite que a pessoa transite entre sofrimento e equilíbrio de forma mais segura. Muitas vezes, é nesse espaço que ela consegue reconstruir sentidos para a própria vida”, destacou.

As comemorações pelos 80 anos dos ateliês terapêuticos acontecem ao longo de todo o ano. A programação começou durante a 24ª Semana Nacional de Museus, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), e inclui exposições, fóruns científicos, oficinas abertas ao público, documentários e atividades culturais gratuitas.

Entre os destaques está o fórum “A Emoção de Lidar”, expressão criada por Nise da Silveira para definir seu método terapêutico baseado na sensibilidade, no afeto e na liberdade de expressão.

O Museu de Imagens do Inconsciente também trabalha na internacionalização da obra da psiquiatra, com projetos de tradução de livros para inglês, francês e espanhol, além de parcerias com instituições estrangeiras interessadas em implantar modelos semelhantes de cuidado em saúde mental.

O objetivo, segundo os organizadores, é ampliar o reconhecimento acadêmico e científico das ideias de Nise da Silveira, fortalecendo seu legado para as futuras gerações.

Fonte : Agência Brasil

Tags: #CulturaAmazonense#SUSarte terapiaateliês terapêuticosluta antimanicomialMuseu de Imagens do InconscienteNise da SilveirapsiquiatriaRio de Janeirosaúde mental
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