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Cinco anos após início da vacinação, especialistas alertam para baixa adesão e riscos persistentes da covid-19 no Brasil

Apesar do fim da emergência sanitária, dados mostram cobertura vacinal insuficiente e impacto contínuo da doença, especialmente entre crianças, idosos e grupos vulneráveis

30/01/2026
© Raquel Portugal/FioCruz

© Raquel Portugal/FioCruz

Cinco anos após o início da campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil, a pandemia foi oficialmente superada, mas a doença segue presente no cotidiano da saúde pública nacional. Em níveis muito menores do que nos momentos mais críticos, o coronavírus ainda provoca hospitalizações e mortes, sobretudo entre pessoas não vacinadas ou pertencentes a grupos com maior risco de desenvolver formas graves da infecção. Diante desse cenário, especialistas reforçam a importância de manter a imunização em dia e alertam para a queda preocupante da cobertura vacinal no país.

Os números mais recentes do Ministério da Saúde evidenciam esse desafio. Em 2025, menos de 40% das doses de vacinas contra a covid-19 distribuídas aos estados e municípios foram efetivamente aplicadas. Das 21,9 milhões de doses enviadas à rede pública, apenas cerca de 8 milhões chegaram aos braços da população. A baixa adesão acende um sinal de alerta, especialmente considerando que a vacinação segue sendo a principal ferramenta para evitar internações e óbitos.

As consequências dessa cobertura insuficiente aparecem nos dados da plataforma Infogripe, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que monitora casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no país. Somente em 2025, ao menos 10.410 pessoas desenvolveram quadros graves de covid-19, resultando em aproximadamente 1,7 mil mortes. Os dados consideram apenas os casos confirmados por exames laboratoriais e ainda podem ser atualizados, já que há registros inseridos tardiamente no sistema de vigilância.

Para o coordenador do Infogripe, Leonardo Bastos, o coronavírus permanece como um dos principais vírus respiratórios em circulação. Segundo ele, embora a percepção social seja de normalização, os números ainda são elevados. “A covid não foi embora. De tempos em tempos, observamos surtos e avaliamos constantemente o risco de eles se transformarem em epidemias. O volume atual de casos e mortes ainda é muito alto, mas acaba sendo relativizado quando comparado ao cenário dramático vivido durante a pandemia”, explica.

A pesquisadora Tatiana Portella, também da Fiocruz, chama atenção para outro fator de preocupação: a imprevisibilidade do vírus. Diferentemente da gripe, que apresenta padrão sazonal mais definido, a covid-19 ainda não segue um comportamento regular. “Uma nova onda pode surgir a qualquer momento, associada ao aparecimento de uma nova variante, potencialmente mais transmissível ou agressiva. Por isso, é fundamental que a população mantenha a vacinação atualizada”, destaca.

Desde 2024, a vacina contra a covid-19 passou a integrar o calendário básico de imunização para três grupos prioritários: crianças, idosos e gestantes. Além deles, pessoas com condições específicas de saúde ou pertencentes a grupos vulneráveis devem receber doses de reforço periódicas. Apesar disso, cumprir esse calendário tem sido um grande desafio. Em 2025, cerca de 2 milhões de doses foram aplicadas em crianças, mas o Ministério da Saúde não detalhou o percentual de cobertura alcançado.

Dados do painel público de vacinação indicam que apenas 3,49% das crianças menores de 1 ano receberam a vacina em 2025. A pasta reconhece que os números subestimam a cobertura real, pois o sistema ainda consolida dados de diferentes faixas etárias, incluindo crianças até 5 anos, gestantes e idosos. Mesmo assim, o histórico recente preocupa: até fevereiro de 2024, apenas 55,9% das crianças de 5 a 11 anos haviam sido vacinadas, percentual que cai para 23% entre aquelas de 3 e 4 anos.

Segundo a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabela Ballalai, a principal explicação para a baixa adesão está na redução da percepção de risco. “Quando a vacinação infantil começou, o cenário era de menos casos e menos mortes. Com isso, a sensação de urgência diminuiu e o discurso antivacina ganhou espaço, impulsionado por fake news”, avalia.

O risco, no entanto, permanece elevado. Crianças menores de 2 anos representam o segundo grupo mais vulnerável às complicações da covid-19, atrás apenas dos idosos. Entre 2020 e 2025, quase 20,5 mil crianças dessa faixa etária foram internadas com SRAG associada ao coronavírus, com 801 mortes. Mesmo em 2024, considerado um ano de maior controle da doença, foram registradas 55 mortes e mais de 2,4 mil internações infantis.

Além disso, a covid-19 pode desencadear a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), uma complicação rara, porém grave, que apresenta taxa de mortalidade em torno de 7%. Entre 2020 e 2023, o Brasil contabilizou cerca de 2,1 mil casos da síndrome, com 142 óbitos. Estudos internacionais também apontam maior incidência de problemas cardiovasculares em crianças e adolescentes após a infecção.

Por outro lado, a eficácia e a segurança das vacinas são amplamente comprovadas. Estudos realizados em São Paulo demonstraram que crianças e adolescentes vacinados apresentaram baixíssima taxa de infecção e nenhum caso grave. Entre 2022 e 2023, mais de 6 milhões de doses foram aplicadas em crianças no Brasil, com raríssimos eventos adversos, em sua maioria leves.

Para Isabela Ballalai, o papel dos profissionais de saúde é decisivo para reverter o cenário. Ela defende investimento contínuo na formação e atualização médica, além de uma postura ativa na recomendação das vacinas às famílias. “Temos evidências científicas sólidas que comprovam a segurança e a eficácia das vacinas. É fundamental que essa informação chegue à população de forma clara e responsável”, conclui.

Fonte : Agência Brasil

Tags: #SUScovid-19CriançasFiocruzsaúde públicavacinação
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