Anastácio Peralta, líder indígena da etnia Kaiowá, está prestes a embarcar em uma nova jornada acadêmica que o levará à França. Aos 64 anos, ele foi selecionado para participar do programa Guatá, uma iniciativa do governo francês em parceria com universidades brasileiras, que oferece bolsas de intercâmbio a doutorandos indígenas. A oportunidade de estudar na Universidade Paris 8, em Saint Denis, durante seis meses, é mais um capítulo marcante na vida de Anastácio, que começou sua trajetória educacional apenas aos 37 anos.
Nascido na aldeia em Caarapó, no Mato Grosso do Sul, Anastácio Peralta cresceu falando a língua guarani, a língua de seu povo. Embora também falasse português, só aprendeu a ler e escrever na fase adulta, após iniciar um projeto de educação de jovens e adultos. Antes disso, trabalhou por duas décadas em fazendas, derrubando mato e carregando produtos pesados. A mudança para Dourados, onde machucou a coluna durante o trabalho, foi um ponto de virada. Aos 37 anos, decidiu que era hora de estudar. “Eu conheci alguns colegas estudiosos, antropólogos, que me incentivaram a estudar”, relembra Anastácio.
Os primeiros passos nos estudos levaram Anastácio a se envolver na criação de um curso de formação de professores indígenas em nível médio, chamado Ara Vera. Mais tarde, esse curso evoluiu para a licenciatura indígena Teko Arandu, na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Esse foi o início de uma jornada que o levou ao mestrado, onde defendeu a dissertação “Tecnologias Espirituais: Roça, Reza e Sustentabilidade entre os Kaiowá e Guarani”, e posteriormente ao doutorado, no qual continua a aprofundar seus estudos sobre as práticas tradicionais de seu povo.
Anastácio Peralta questiona em sua pesquisa: “Hoje a gente vive de cesta básica. E como a gente vivia no passado? Por que a gente vivia de roça no passado e hoje a gente vive de cesta básica?”. Para ele, a agricultura tradicional dos kaiowá vai além da simples produção de alimentos; é uma tecnologia espiritual, com práticas e ferramentas que têm profunda conexão com a terra. “Nós, kaiowá, temos toda uma ciência”, afirma. Ele explica que a roça é cuidada como qualquer ser vivo, pois para os guarani, “a terra é mãe” e deve ser cuidada com respeito. Entretanto, ele nota que a terra também está doente, e sua pesquisa busca formas de curá-la.
O programa Guatá, que na língua guarani significa “andar”, oferece a Anastácio Peralta a oportunidade de expandir seus horizontes. Ele parte para a França em setembro de 2024, levando consigo as tradições e a sabedoria dos kaiowá para uma das principais instituições acadêmicas europeias. Para Anastácio, essa troca de experiências não é apenas uma oportunidade de aprender, mas também de compartilhar. “Quero aproveitar para ter outros conhecimentos. Essa troca de experiência é muito boa. Também é bom conhecer outros lugares além do Brasil”, diz ele, relembrando a viagem que fez ao Parlamento Europeu em 2010 como liderança indígena.
Essa nova experiência na França promete trazer reflexões profundas para Anastácio Peralta sobre como a ciência ocidental pode dialogar com a ciência indígena. Ele acredita que essa troca de conhecimentos pode contribuir tanto para o seu povo quanto para o planeta. “Essa troca de experiência talvez vá me provocar a entender mais o meu povo. Como é a ciência de fora? E como a minha ciência pode ajudar essa outra ciência? Isso é uma troca de conhecimento. No que eu posso ajudar o planeta? E o que eu posso trazer de lá para ajudar o meu povo?”, reflete Anastácio.
A história de Anastácio Peralta é um exemplo de superação e resiliência. De trabalhador rural a doutorando, ele mostra que nunca é tarde para aprender e que a educação pode ser um caminho poderoso para a transformação pessoal e coletiva. Agora, ele leva sua bagagem cultural e intelectual para a França, onde continuará a explorar e a divulgar a riqueza da sabedoria guarani, contribuindo para um diálogo intercultural que pode beneficiar a todos.
Fonte: Agência Brasil

