A estudante de Letras do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Bianca Borges, de 25 anos, foi eleita a nova presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE). A jovem, natural de Itapevi (SP) e criada na Praia Grande, assume o comando da maior entidade estudantil da América Latina pelos próximos dois anos, após ser consagrada com 82,62% dos votos no 60º Congresso da UNE (Conune), realizado em Goiânia (GO). Mais de 10 mil universitários participaram do encontro que definiu a nova direção da entidade.
A eleição acontece em um momento sensível da conjuntura política internacional, com tensões crescentes entre Brasil e Estados Unidos. O presidente norte-americano Donald Trump anunciou um tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, cuja entrada em vigor está prevista para o próximo dia 1º de agosto. A UNE anunciou que, nesta mesma data, iniciará uma jornada nacional de mobilizações em defesa da soberania brasileira.
“A UNE nasceu na luta contra o nazifascismo. Hoje, diante desse ataque orquestrado pela extrema direita internacional, é nosso dever estar nas ruas. A luta pela soberania nacional se tornou central para garantir qualquer projeto de educação popular”, afirmou Bianca Borges em entrevista à Agência Brasil.
A taxação foi justificada por Trump com base em suposta solidariedade ao ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. Trump chegou a enviar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedindo anistia a Bolsonaro, algo fora da alçada do Executivo brasileiro. Para a nova presidenta da UNE, o gesto representa uma ameaça direta à democracia brasileira, e precisa ser denunciado.
“É um falso patriotismo. Esse tarifaço penaliza principalmente os trabalhadores e as camadas populares. Estamos convocando a juventude para ocupar as ruas em defesa do Brasil e contra esse complô internacional.”
Unidade e coragem na UNE
A nova gestão foi eleita sob a chapa 3, intitulada “Unidade e coragem em defesa do Brasil: estudantes nas ruas para derrotar a extrema-direita, taxar os super-ricos e investir na educação”. A composição reúne juventudes ligadas ao PCdoB, PT, PSOL, PDT e PSB, representando uma unidade histórica no movimento estudantil.
“Temos todos os setores do PT e também alas do PSOL compondo a nossa chapa. Isso demonstra a maturidade política do movimento estudantil e a força da nossa união”, destacou Bianca.
A chapa 2, “Oposição Unificada e independente para mudar a UNE”, ficou com 17,23% dos votos, enquanto a chapa 1, com proposta de oposição de esquerda ao governo, retirou a candidatura antes do pleito.
Evasão nas universidades é desafio central
Entre os temas prioritários da nova gestão está o combate à evasão no ensino superior, apontado como um dos principais entraves para o acesso democrático à educação. Dados do Censo da Educação Superior de 2023 mostram uma evasão de 53% nas universidades públicas e 61% nas instituições privadas. Em cursos de licenciatura, a desistência chega a 58%, a maior da década.
“Queremos uma universidade que seja central num projeto de desenvolvimento social e não apenas econômico. A evasão é reflexo da falta de políticas públicas de permanência para os filhos da classe trabalhadora”, disse Bianca.
Durante o congresso, o presidente Lula sancionou uma lei que destina recursos do Fundo Social para assistência estudantil, focando em estudantes de ações afirmativas. No início do ano, o governo já havia lançado o programa Pé de Meia Licenciaturas, oferecendo bolsa mensal de R$ 1.050. No entanto, segundo a UNE, os recursos ainda são insuficientes.
A entidade defende a retirada da educação do arcabouço fiscal, que limita os gastos públicos. “Não dá para educação e direitos sociais estarem reféns de uma regra que só restringe quem mais precisa”, afirmou a nova presidenta.
Liderança feminina ganha força
Bianca Borges dá continuidade à sequência de lideranças femininas à frente da UNE. Seis das últimas sete gestões foram presididas por mulheres, o que evidencia o crescimento do protagonismo feminino no movimento estudantil.
“A história mostra que o acesso das mulheres à universidade é recente, mas irreversível. Nosso papel é abrir caminhos para que outras mulheres também liderem. Lideranças femininas são mais acolhedoras e inclusivas.”
Tragédia no caminho do congresso
O 60º Conune também foi marcado por uma tragédia na BR-153, em Porangatu (GO). Um acidente envolvendo um ônibus, um micro-ônibus e uma carreta causou cinco mortes, incluindo três estudantes da UFPA que estavam a caminho do congresso: Leandro Souza Dias, Ana Letícia Araújo Cordeiro e Welfesom Campos Alves. Outros dois motoristas também morreram e 70 estudantes ficaram feridos.
“Foi um momento de profunda dor. Esses jovens vinham para construir o futuro do país. Honraremos suas memórias com ainda mais luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade”, declarou a UNE em nota oficial.
Dois feridos ainda seguem internados, e o restante já retornou para suas cidades com apoio logístico do governo federal.
Bianca Borges, agora à frente da UNE, assume com o compromisso de fortalecer a resistência democrática, ampliar o acesso à educação superior e enfrentar os retrocessos impostos pela extrema direita, tanto no Brasil quanto no exterior.
Fonte: Agência Brasil

