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Brasil enfrenta o desafio do etarismo: preconceito contra idosos afeta saúde, trabalho e convivência social

Com o aumento da população idosa, especialistas e autoridades alertam para a necessidade de combater o preconceito etário e promover a convivência entre gerações, valorizando o envelhecimento como parte natural da vida.

08/11/2025
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

O etarismo, também conhecido como preconceito etário, é uma forma de discriminação baseada na idade que atinge, principalmente, as pessoas idosas. Essa prática se manifesta em diferentes esferas da vida cotidiana — do ambiente de trabalho à saúde — e reflete estereótipos negativos que associam o envelhecimento à incapacidade, à fragilidade e à dependência.

No campo profissional, o etarismo se expressa na exclusão de trabalhadores mais velhos de processos seletivos, na falta de oportunidades de capacitação e na dificuldade de reinserção no mercado de trabalho. Na área da saúde, a discriminação aparece quando profissionais desvalorizam queixas de idosos, atribuindo sintomas apenas à idade avançada e negligenciando diagnósticos mais precisos.

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram o impacto dessa questão em um país que envelhece rapidamente. Entre 2000 e 2023, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais quase dobrou, passando de 8,7% para 15,6% da população — o equivalente a 33 milhões de pessoas idosas. As projeções indicam que, até 2070, esse grupo representará quase 40% da população nacional, somando mais de 75 milhões de cidadãos.

A fisioterapeuta Isabela Azevedo Trindade, presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), explica que o etarismo é também um problema cultural e psicológico, pois muitas vezes o próprio idoso acaba internalizando os preconceitos da sociedade. “Ele passa a acreditar que envelhecer é sinônimo de perda, de incapacidade. Isso gera isolamento, reduz o engajamento em atividades produtivas e reforça a ideia de que a velhice é algo negativo”, alerta.

Para Isabela, o enfrentamento ao etarismo deve começar pela mudança de mentalidade coletiva. Ela defende que é necessário promover a intergeracionalidade — o convívio e a troca entre diferentes gerações — como forma de romper estigmas. “Precisamos mostrar idosos ativos, produtivos, que estudam, trabalham e se reinventam. É fundamental capacitar profissionais da saúde e fomentar políticas públicas que incentivem a inclusão e a empregabilidade de pessoas mais velhas”, afirma.

A especialista também destaca que o envelhecimento saudável começa muito antes da velhice. “Ter uma vida equilibrada, com boa alimentação, sono adequado e prática regular de exercícios, influencia diretamente em como vamos envelhecer. Envelhecer bem é consequência de viver bem”, observa.

Além disso, Isabela reforça que o preconceito afeta inclusive a vida afetiva e sexual das pessoas idosas, muitas vezes tratadas como se estivessem “mortas para o amor”. Segundo ela, “a afetividade e o desejo fazem parte de todas as idades — o que muda são as formas de expressão e as prioridades”.

O secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), concorda que o combate ao etarismo precisa começar cedo, com educação e conscientização nas escolas. “A criança que não tem uma visão positiva do envelhecer também vai reproduzir preconceitos contra pessoas idosas. Precisamos ensinar desde cedo o valor da experiência e do respeito”, afirmou à Agência Brasil.

Com esse propósito, o MDHC lançou a revista em quadrinhos “Turma da Mônica em: Intergeracionalidade”, uma parceria com o Instituto Maurício de Sousa. O gibi apresenta personagens idosos convivendo com os mais jovens, abordando temas como respeito, diversidade e valorização da velhice. “É uma forma lúdica e poderosa de mostrar que o envelhecimento faz parte da vida de todos nós”, destacou o secretário.

O lançamento da revista ocorreu em março, em uma escola pública do Distrito Federal, com a participação de Varlinda Lisboa Leite, de 61 anos, e seu neto Arthur Digo, de 12. Varlinda contou que aprendeu com sua avó a importância do respeito entre gerações e que hoje ensina o mesmo aos netos. “Eu ensino o que meus pais e minha avó me passaram: respeitar o próximo e valorizar o que o outro tem a ensinar”, disse emocionada.

A Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa também desenvolve outras ações voltadas a esse público, como o programa Viva Mais Cidadania, que promove alfabetização, inclusão digital e formação tecnológica para pessoas idosas. Segundo Alexandre da Silva, o objetivo é garantir que todos tenham acesso à educação, à tecnologia e à cidadania, independentemente da idade.

Essas iniciativas refletem um esforço crescente para que o Brasil se torne uma sociedade para todas as idades, capaz de reconhecer o valor da experiência e da contribuição das pessoas idosas em todos os espaços.

“Combater o etarismo é valorizar o futuro de todos nós. Afinal, envelhecer é um privilégio e deve ser encarado com respeito, dignidade e alegria”, resume o secretário.

Fonte: Agência Brasil

Tags: Direitos Humanosenvelhecimentoetarismoidososintergeracionalidademercado de trabalhoMinistério dos Direitos Humanospreconceitosaúde mentalSBGG
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