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Caminhoneiros sofrem com longas jornadas e enfrentam riscos à saúde mental nas estradas brasileiras

Pesquisas indicam alta incidência de estresse, depressão e ansiedade entre motoristas; especialistas defendem políticas públicas, melhores condições de descanso e fiscalização rigorosa para reduzir acidentes e melhorar a qualidade de vida da categoria.

23/09/2025
© Tomaz Silva/Agência Brasil

© Tomaz Silva/Agência Brasil

Jornada de trabalho extensa, pressão por prazos, solidão e instabilidade financeira. Essa é a realidade enfrentada por milhares de caminhoneiros no Brasil, que muitas vezes acabam adoecendo física e psicologicamente. Emerson André, conhecido entre colegas como “Facebook”, está há 16 anos na estrada e confessa que a rotina já lhe custou momentos importantes em família. “Tem muitos motoristas ficando doentes, porque o estresse do cotidiano e o trajeto se tornam cansativos. A família cobra porque você não está em casa, e isso gera um peso emocional muito grande”, relata.

A solidão e a tensão fazem parte da rotina. Daniel Francisco de Lima, o “Del Caminhoneiro”, que atua há 27 anos, reconhece que a estrada ensina a controlar raiva e ansiedade, mas reforça que a pressão diária deixa marcas invisíveis.

De acordo com o procurador do Trabalho da 24ª Região, Paulo Douglas de Moraes, a saúde mental já é considerada um problema estrutural na cadeia logística. Ele destaca o chamado “apagão de motorista”: a categoria está envelhecendo e os jovens não se interessam pela profissão. Hoje, a média de idade dos caminhoneiros é de 46 anos.

Longas jornadas e insegurança profissional

Pesquisa do Ministério Público do Trabalho (MPT) aponta que 50,49% dos caminhoneiros recebem por comissão, e 43,7% trabalham sem carga horária definida. Isso gera instabilidade financeira e insegurança. Emerson André está nesse grupo: “Se você não trabalhar, não ganha. Tem uma carteira assinada só para constar, mas a realidade é comissão. A maioria sobrevive assim.”

Os dados revelam ainda que 56% trabalham entre nove e 16 horas por dia, e quase um quarto ultrapassa 13 horas. O intervalo entre jornadas também é descumprido: 43,7% descansam menos de oito horas, quando a lei prevê 11.

Essa sobrecarga leva muitos a recorrerem a drogas para suportar o ritmo. Levantamento do MPT mostra que quase 27% dos motoristas fazem uso de substâncias como rebites e até cocaína para permanecer acordados. O coordenador-geral de Segurança Viária da PRF, Jefferson Almeida, confirma a gravidade: “A fiscalização encontra desde estimulantes leves até drogas pesadas, usadas para burlar o sono e manter o volante por mais de 12 horas.”

Falta de infraestrutura e riscos

Alan Medeiros, da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, destaca a carência de pontos de parada seguros. Postos de combustível são uma alternativa, mas muitas vezes exigem abastecimento obrigatório para permitir a permanência. O risco de dormir dentro do caminhão é alto: há casos de assaltos, sequestros e roubo de carga.

Para Del Caminhoneiro, as regras só podem ser cumpridas se houver condições mínimas. “Querem cobrar descanso dentro da lei, mas não oferecem estrada boa nem lugar de repouso”, critica.

Vulnerabilidade emocional

A doutora em psicologia Michelle Engers Taube, da Unisinos, estudou a saúde mental dos caminhoneiros. Sua pesquisa indica que trabalhar acima de 12 horas diárias triplica a chance de desenvolver transtornos como ansiedade e depressão. O distanciamento da família também pesa.

Um levantamento da plataforma Moodar revela que um em cada cinco profissionais de transporte apresenta vulnerabilidade emocional. O psiquiatra Alcides Trentin Junior, da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego, alerta: “A ansiedade e a depressão aumentam o risco de acidentes. É preciso monitorar e avaliar constantemente esses trabalhadores.”

Normas e políticas públicas

As atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde maio, obrigam empresas a garantir ambientes psicologicamente saudáveis. Para a neurocientista Barbara Lippi, fundadora da Moodar, o avanço é significativo: “Não se trata apenas da saúde individual, mas de reduzir os riscos psicossociais do ambiente de trabalho, como estresse e fadiga.”

O procurador Paulo Douglas lembra que o transporte rodoviário lidera os índices de mortes em acidentes de trabalho no país. Ele reforça que o MPT vai intensificar a fiscalização, com foco também na saúde mental.

Para especialistas, políticas públicas de apoio, rodovias bem estruturadas e fiscalização rigorosa são fundamentais para melhorar a qualidade de vida dos caminhoneiros e reduzir os riscos à segurança nas estradas.

Fonte: Agência Brasil

Tags: acidentes de trânsitocaminhoneirosdependência químicajornadas de trabalhoMinistério Público do Trabalhopolíticas públicasPRFsaúde do trabalhadorsaúde mentaltransporte rodoviário
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