O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, deu início neste domingo (18) a uma campanha inédita de vacinação em massa contra a dengue no Brasil. A ação começou no município paulista de Botucatu e marca o uso da vacina Butantan-DV, o primeiro imunizante do mundo em dose única capaz de prevenir a doença. Desenvolvida com tecnologia 100% nacional pelo Instituto Butantan, a vacina representa um marco histórico para a ciência brasileira e para as estratégias de enfrentamento às arboviroses no país.
A iniciativa faz parte de um estudo coordenado pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Prefeitura de Botucatu, a Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e o próprio Instituto Butantan. O objetivo é avaliar, em condições reais, a efetividade da vacina, seu impacto na redução de casos da doença e a influência na circulação do vírus dentro da comunidade.
Nesta fase inicial, o governo federal decidiu vacinar toda a população de 15 a 59 anos de três municípios brasileiros: Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG). A escolha de cidades inteiras, e não apenas grupos específicos, permite uma análise mais ampla dos efeitos da imunização em massa antes da futura ampliação da vacina para todo o território nacional.
“Esse é o primeiro passo da vacina do Butantan no nosso calendário de vacinação da dengue”, afirmou o ministro Alexandre Padilha durante o lançamento da campanha. Segundo ele, a expectativa é que os dados obtidos nesse projeto piloto confirmem os resultados observados nos estudos clínicos e fortaleçam a estratégia de controle da doença no Brasil.
Estratégia piloto
Além de Botucatu, a campanha tem início simultâneo em Maranguape, no Ceará, e em Nova Lima, em Minas Gerais. De acordo com o Ministério da Saúde, os municípios foram selecionados por apresentarem população entre 100 mil e 200 mil habitantes, histórico consistente de campanhas de vacinação e localização estratégica próxima a grandes regiões metropolitanas, o que facilita o monitoramento da circulação viral.
A meta do governo é alcançar ao menos 40% de cobertura vacinal da população dentro da faixa etária definida. Para o ministro, esse percentual é suficiente para gerar impacto significativo não apenas na proteção individual, mas também na redução da transmissão comunitária da dengue.
“Se a gente chegar a 40% ou 50% da população vacinada, além de proteger cada indivíduo que se vacina, essa vacina tem um forte impacto no controle da doença na cidade como um todo”, explicou Padilha.
Nesta primeira etapa, serão distribuídas 204,1 mil doses da vacina Butantan-DV: 80 mil para Botucatu, 60,1 mil para Maranguape e 64 mil para Nova Lima. O quantitativo faz parte das 1,3 milhão de doses já produzidas pelo Instituto Butantan e é suficiente para a vacinação em massa do público-alvo nesses municípios.
Experiência anterior em Botucatu
Esta não é a primeira vez que Botucatu participa de uma iniciativa de vacinação em massa com caráter experimental. Em maio de 2021, a cidade foi escolhida para a vacinação contra a covid-19 com o imunizante da AstraZeneca/Oxford/Fiocruz. Na ocasião, a estratégia teve impacto positivo na redução de internações hospitalares, reforçando a credibilidade do município como campo de estudos em saúde pública.
Segundo o ministro da Saúde, a escolha de Botucatu também levou em consideração o fato de o estado de São Paulo ter concentrado o maior número de casos de dengue no país no ano anterior, além de registrar ampla circulação do sorotipo 3 da doença.
“Como circulou dengue tipo 3 aqui no estado de São Paulo, é uma grande oportunidade para avaliar o impacto que essa vacina vai ter nesse sorotipo e na possibilidade de controlar rapidamente a dengue na cidade”, destacou Padilha.
Para garantir o acesso da população, a prefeitura de Botucatu organizou 28 pontos de vacinação, incluindo Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e locais estratégicos distribuídos pelo município. A orientação é evitar aglomerações, com atendimento dividido por faixas etárias ao longo do dia. Pessoas entre 35 e 59 anos devem comparecer pela manhã, enquanto jovens de 15 a 34 anos são atendidos no período da tarde. Menores de 18 anos precisam estar acompanhados por um responsável legal.
Vacina nacional e eficácia comprovada
A vacina Butantan-DV já foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e protege contra os quatro sorotipos do vírus da dengue: DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4. Os estudos clínicos demonstraram eficácia geral de 74% contra a doença, mais de 91% contra casos graves e 100% de proteção contra hospitalizações por dengue.
As pesquisas foram realizadas entre 2016 e 2024, com a participação de mais de 16 mil voluntários de 14 estados brasileiros. O imunizante utiliza a tecnologia de vírus vivo atenuado e foi desenvolvido pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa WuXi Vaccines, dentro de uma articulação coordenada pelo Ministério da Saúde.
Para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, segue disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) a vacina QDenga, de produção japonesa, aplicada em duas doses e oferecida exclusivamente nas UBSs dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros.
A expectativa do governo federal é que os resultados dessa estratégia piloto acelerem a incorporação definitiva da vacina Butantan-DV ao calendário nacional de imunização, ampliando a capacidade do Brasil de enfrentar uma das doenças que mais impactam a saúde pública no país.
Fonte : Agência Brasil

