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Cientistas realizam “censo do fundo do mar” para mapear biodiversidade em área protegida no litoral fluminense

Pesquisa em águas cristalinas de Arraial do Cabo monitora peixes, corais e espécies ameaçadas, ajudando a orientar políticas ambientais e uso sustentável

26/04/2026
© Fernando Frazão/Agência Brasil

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Em um dos cenários mais preservados do litoral brasileiro, pesquisadores têm se dedicado a um trabalho minucioso de monitoramento da vida marinha em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos. Em meio às águas transparentes e à rica biodiversidade, mergulhadores realizam um verdadeiro “censo do fundo do mar”, contabilizando espécies de peixes e analisando as condições do ecossistema local.

A atividade ocorre a poucos metros da superfície, geralmente entre 7 e 8 metros de profundidade, onde os cientistas delimitam áreas específicas de até 20 metros para observação. Equipados com instrumentos de medição e anotações, eles identificam espécies e registram sua quantidade. Durante o trabalho, não é raro o encontro com tartarugas marinhas, que dividem o espaço com os pesquisadores.

O monitoramento faz parte do Projeto Costão Rochoso, desenvolvido por pesquisadores ligados à Universidade Federal Fluminense e executado pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, em parceria com a Petrobras. A iniciativa começou em 2017 e se expandiu para outras áreas do litoral, incluindo Cabo Frio e Armação dos Búzios, com coletas realizadas semestralmente. Já em Angra dos Reis, na Costa Verde, o levantamento ocorre anualmente.

Os pesquisadores destacam que os costões rochosos — ecossistemas que fazem a transição entre o mar e o continente — são fundamentais para a manutenção da vida marinha. Formados por rochas e paredões parcialmente submersos, esses ambientes servem de abrigo e fonte de alimento para diversas espécies, incluindo peixes, crustáceos, moluscos e algas. Além disso, são áreas importantes para aves e organismos que vivem na zona de entremarés, como mexilhões e caranguejos.

A região de Arraial do Cabo é considerada um verdadeiro “hotspot” de biodiversidade. Isso se deve a uma característica geográfica peculiar: o município funciona como um ponto de encontro entre correntes marítimas frias vindas do sul e águas quentes do Nordeste. Esse fenômeno favorece a presença de uma ampla variedade de espécies, incluindo algumas típicas do Caribe.

Segundo os pesquisadores, já foram identificadas cerca de 200 espécies de peixes na região, além da passagem das cinco espécies de tartarugas marinhas encontradas no Brasil. Essa diversidade supera até mesmo áreas famosas pela riqueza natural, como Fernando de Noronha.

Outro aspecto relevante é o papel dos costões rochosos como berçário natural. Pequenos peixes utilizam essas áreas protegidas para se desenvolver, o que reforça a importância da preservação. O monitoramento também identificou espécies ameaçadas de extinção, como garoupas, meros, badejos, budiões, raias e tartarugas.

Os dados coletados são fundamentais para a tomada de decisões ambientais. Em parceria com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), os pesquisadores contribuem para definir regras de manejo, como ограничения na pesca e limites para o turismo náutico. Em alguns casos, pode ser recomendada a suspensão temporária da pesca de determinadas espécies para garantir sua reprodução.

Além disso, estudos específicos analisam o impacto da presença humana na fauna marinha, como a distância segura para a observação de tartarugas sem causar estresse aos animais. Outro ponto de atenção é o ruído gerado por embarcações, que pode interferir no comportamento das espécies.

O projeto também investiga os efeitos das mudanças climáticas, especialmente nas áreas de entremarés. Pesquisadores têm observado variações extremas de temperatura, que podem comprometer a sobrevivência de organismos mais sensíveis, como algas e mexilhões. Sensores instalados em rochas e boias coletam dados continuamente para entender melhor esses impactos.

Dentro da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, o uso dos recursos naturais segue princípios de sustentabilidade. A pesca é permitida apenas para moradores locais, sendo proibida a atividade industrial. Essa política busca equilibrar a conservação ambiental com a manutenção dos modos de vida tradicionais.

Para pescadores da região, a preservação é essencial. A atividade pesqueira não apenas garante sustento, mas também movimenta a economia local, envolvendo diversos profissionais, desde mecânicos até fabricantes de redes. O turismo, por sua vez, surge como complemento de renda, reforçando a importância do equilíbrio entre exploração e conservação.

O projeto também atua na educação ambiental, promovendo encontros em escolas e capacitações para pescadores e suas famílias. A proposta é aproximar a comunidade da ciência e estimular uma consciência ambiental mais ampla.

A parceria com a Petrobras, iniciada em 2023 e renovada em 2026 com investimento de R$ 6 milhões, reforça o compromisso com ações socioambientais. A iniciativa busca integrar conservação, turismo comunitário e atividades econômicas sustentáveis, demonstrando que desenvolvimento e proteção ambiental podem caminhar juntos.

Combinando ciência, participação social e políticas públicas, o Projeto Costão Rochoso se consolida como uma importante ferramenta para a preservação da biodiversidade marinha brasileira, garantindo que esses ecossistemas continuem existindo para as futuras gerações.

Fonte : Agência Brasil

Tags: Arraial do Cabobiodiversidade marinhaconservação ambientalcostões rochososICMBiomudanças climáticaspesca sustentávelpesquisa científica
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