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Clássico pioneiro do cinema gaúcho, “Vento Norte” ganha projeção internacional em festival na Holanda

Longa-metragem restaurado em 4K será exibido no Festival Internacional de Cinema de Roterdã e reafirma a importância histórica do audiovisual produzido no Rio Grande do Sul

22/12/2025
© Salomão Scliar/ Cinemateca Capitólio

© Salomão Scliar/ Cinemateca Capitólio

O longa-metragem Vento Norte (1951), dirigido por Salomão Scliar e considerado um marco pioneiro do cinema produzido no Rio Grande do Sul, foi selecionado para integrar a programação oficial do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, um dos mais importantes eventos cinematográficos da Europa. O festival acontece entre os dias 29 de janeiro e 8 de fevereiro de 2026, na Holanda, e exibirá o filme na mostra Cinema Regained, dedicada a obras clássicas restauradas, documentários e produções experimentais que refletem sobre a história e a linguagem do cinema.

O anúncio da seleção foi feito no último dia 16 e representa um reconhecimento internacional não apenas da obra de Scliar, mas também do esforço de preservação da memória audiovisual brasileira. Restaurado recentemente em resolução 4K, o filme terá duas exibições durante o festival, embora as datas exatas ainda não tenham sido divulgadas pela organização.

A restauração de Vento Norte foi conduzida pela Cinemateca Capitólio, vinculada à Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, em parceria com a Cinemateca Brasileira, sediada em São Paulo. O trabalho integra um projeto de resgate de obras fundamentais do cinema nacional e foi concluído em um momento simbólico: o centenário de nascimento de Salomão Scliar, celebrado neste ano.

Em entrevista à Agência Brasil, a diretora da Cinemateca Capitólio, Daniela Mazzilli, ressaltou a relevância histórica do longa-metragem. Segundo ela, um dos principais objetivos do restauro foi recuperar e recolocar em circulação uma cinematografia que marcou o início da produção ficcional sonora no estado. “Por ser o primeiro filme de ficção com som realizado inteiramente no Rio Grande do Sul, havia uma responsabilidade histórica muito grande em garantir que essa obra fosse preservada e exibida com qualidade”, afirmou.

O filme havia passado por uma primeira digitalização em VHS no início da década de 1990, mas, conforme explica Daniela, esse formato já não atende às exigências técnicas atuais. “Com as projeções digitais de altíssima definição, esse tipo de material não dá mais conta. Era fundamental recuperar o filme a partir das cópias em película e restaurar inclusive o som”, explicou.

Preservação e risco patrimonial

Outro fator determinante para a restauração foi o risco de perda do material original. Atualmente, existem apenas duas cópias em 35 milímetros conhecidas de Vento Norte, sendo uma delas preservada no Rio Grande do Sul. Essa escassez tornava cada exibição um potencial risco ao patrimônio audiovisual. “O 35 mm hoje passa a ser uma cópia de guarda, não mais de difusão. A digitalização cria uma versão segura para circulação”, destacou a diretora.

Há ainda a possibilidade de existir uma cópia do filme no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), informação que segue em investigação por parte das equipes envolvidas no projeto.

A versão restaurada que será exibida em Roterdã utiliza o formato DCP 4K (Digital Cinema Package), padrão mundial para projeções em salas digitais. Tanto cinemas comerciais quanto festivais e salas de arte já adotam amplamente esse sistema, que oferece altíssima resolução de imagem e som.

Um elo estético entre movimentos cinematográficos

Além de sua importância histórica, Vento Norte chama atenção por sua estética e linguagem cinematográfica. Para Daniela Mazzilli, trata-se de um filme brasileiro que precisa ser redescoberto. “É um elo entre o neorrealismo italiano e o cinema novo brasileiro. Isso se percebe pelo uso de não atores, pelas paisagens naturais e pela forma como a narrativa é construída”, avaliou.

Rodado em preto e branco na cidade de Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, o longa contou com a participação de pescadores locais no elenco. A trama retrata a rotina de uma vila de pescadores que tem seu equilíbrio rompido pela chegada de um misterioso forasteiro, cuja presença desperta conflitos, paixões e violência, conduzindo a história a um desfecho trágico.

A paisagem de dunas, ventos e mar, pouco associada ao imaginário tradicional do estado, é outro elemento de destaque. “Muitas pessoas pensam no Rio Grande do Sul apenas como serra ou pampa. O filme mostra uma outra face do estado, com uma cultura própria ligada ao litoral”, observou Daniela.

Reconhecimento internacional

A seleção para o Festival de Roterdã é vista como um passo decisivo para a redescoberta internacional do filme. No ano passado, cerca de 43 obras concorreram na seleção específica de filmes de arquivo, dentro de um universo de quase 400 produções exibidas no festival. Ser o único filme brasileiro escolhido para essa mostra reforça o alcance e a relevância do trabalho.

“A escolha por Roterdã foi muito especial. É um festival que valoriza o cinema de arquivo e a descoberta de cinematografias pouco conhecidas. Ter Vento Norte lançado ali é um presente para o cinema gaúcho e para o cinema brasileiro”, celebrou Daniela.

Além de Roterdã, festivais como Berlim, Cannes, Veneza e Locarno também mantêm mostras dedicadas a filmes restaurados. A exibição internacional pode abrir portas para que Vento Norte circule por esses espaços e alcance novas gerações de espectadores e pesquisadores.

Fonte : Agência Brasil

Tags: audiovisualcinema brasileirocinema gaúchoFestival de Roterdãfilmes clássicosPatrimônio Culturalrestauração cinematográfica
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