“A natureza não dá saltos. Ela segue seu fluxo”. Com essa frase, o escritor e professor indígena Daniel Munduruku abre seu mais recente livro, Estações, uma obra poética que convida o leitor a refletir sobre o tempo, a vida e a relação do ser humano com a natureza. Lançada com destaque durante a Feira do Livro 2025, realizada na capital paulista, a publicação reafirma a importância da literatura indígena como ferramenta de transformação social e educativa.
Com 65 livros publicados e dezenas de prêmios acumulados ao longo de uma sólida trajetória, Daniel esteve nesta sexta-feira (20) na Praça Charles Miller, em frente ao Mercado Livre Arena Pacaembu, onde conversou com o público e autografou exemplares de Estações e também de Crônicas Indígenas para Rir e Refletir na Escola. O evento, gratuito, segue até o domingo (22) e reúne grandes nomes da literatura nacional contemporânea.
Apesar de ter sido pensado para o público infantojuvenil, Estações é, segundo o autor, destinado a todas as idades. “Na verdade, eu não escrevo para crianças, eu escrevo para a infância. E a infância é habitada em todo mundo: todo mundo tem a infância e a carrega dentro de si”, afirma. Ele brinca ao dizer que seu livro funciona como um “cavalo de Troia”, pois, embora seja voltado para crianças, acaba por atingir também os adultos — principalmente os pais que acompanham a leitura dos filhos.
O autor explica que essa estratégia busca resgatar a infância esquecida ou malformada dos adultos, ao mesmo tempo em que reforça a ideia de que todos, crianças e adultos, são parte da natureza. “A gente vive um processo das estações do ano, das estações da natureza e das estações da vida… Nós somos natureza e, se não cuidarmos dela, não estamos cuidando da gente”, reflete Munduruku.
Além de Estações, Daniel também falou sobre Crônicas Indígenas para Rir e Refletir na Escola, obra voltada a jovens leitores, com histórias baseadas em experiências reais, pessoais e coletivas. “O livro é uma tentativa de libertar os nossos jovens das ideias equivocadas que a gente cresceu aprendendo. São passagens às vezes cômicas, às vezes preconceituosas, que eu e amigos vivemos. Eu quis registrar esse espanto, porque aprender é se espantar, e quando a gente se espanta com o que não sabe, aprende com a nossa ignorância”, destaca.
Durante a entrevista concedida à Agência Brasil e à Rádio Nacional, Daniel abordou a evolução da literatura indígena no Brasil. Embora a tradição oral seja milenar entre os povos originários, a publicação de livros por autores indígenas no formato editorial é recente. “A literatura indígena no formato de livro tem no máximo 30 ou 35 anos. E só fomos reconhecidos oficialmente como brasileiros em 1988. Desde então, temos tentado conquistar o público usando uma linguagem e um formato que não são originalmente nossos”, lembra.
Mesmo com todos os desafios, o cenário atual é promissor: hoje são contabilizados cerca de 120 autores indígenas no país, com mais de 300 títulos publicados. Daniel, que foi um dos pioneiros ao publicar Histórias de Índio, em 1996, avalia esse avanço como uma conquista notável, diretamente relacionada às mudanças na educação brasileira. “A educação muda e obriga as escolas a mudarem também, indo atrás de novos conteúdos. A literatura indígena tem muito a dizer, porque fala de um Brasil profundo, de uma ancestralidade que o país foi perdendo”, afirma.
Sobre os próximos projetos, o autor confessa estar “viciado” em escrever e já prepara uma nova obra, voltada ao público adulto. “Qualquer coisa vira possibilidade de livro. Tenho um novo projeto que talvez saia este ano, chamado Fantasmas. Será quase um monólogo e com um estilo bem diferente. Acho que vai surpreender.”
A literatura de Daniel Munduruku, com sua abordagem sensível e transformadora, reafirma a importância de ouvir as vozes ancestrais e de valorizar o saber indígena não apenas como parte da cultura, mas como parte essencial da identidade brasileira.
Fonte: Agência Brasil

