A Orquestra Criança Cidadã, sediada no bairro do Coque, no Recife (PE), é hoje um dos maiores exemplos de como a música pode transformar destinos. Criada há 19 anos em uma das comunidades mais violentas e estigmatizadas da capital pernambucana, a iniciativa já impactou a vida de mais de mil crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Agora, parte dessa história cruza oceanos: onze jovens foram selecionados para integrar a turnê internacional chamada Concerto pela Paz, que percorrerá países da Ásia e Europa.
As apresentações começam em Seul, na Coreia do Sul, seguem para Hiroshima e Osaka, no Japão, depois Roma, na Itália, e culminam em um concerto especial no Vaticano, diante do Papa, no dia 8 de outubro. Ao lado dos brasileiros, estarão músicos de países em conflito, como israelenses e palestinos, ucranianos e russos, além de coreanos do Norte e do Sul.
Trajetória de superação
Entre os selecionados está a violoncelista Callyandra Coutinho, de 17 anos. Moradora do Coque, ela encontrou no projeto não apenas uma oportunidade musical, mas também um refúgio em meio à violência que marcava o bairro. Filha de Sara Coutinho, mãe solo que trabalha em uma fábrica de refrigerantes, Callyandra encontrou no primo Davi Andrade, ex-integrante da orquestra e hoje professor, sua maior inspiração. “Quero mostrar para minha mãe e para minha avó que nada foi em vão”, resume.
Davi, hoje com 26 anos, também integra a turnê. Sua história mostra o alcance do projeto: começou criança, formou-se em música pela UFPE e tornou-se professor. Na adolescência, chegou a tocar diante do Papa Francisco. Atualmente, ensina em comunidades rurais e segue influenciando novos jovens.
Música que gera cidadania
A Orquestra Criança Cidadã não é apenas um espaço de aprendizado musical. Para muitos, representa a chance de acesso a refeições, oportunidades de estudo e, principalmente, esperança. Como destaca Davi, “a orquestra tem um aspecto social que não cabe nos números: ensina cidadania”.
O projeto nasceu da iniciativa do juiz João Targino, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, ao identificar no Coque uma das áreas de menor IDH e maior violência da capital. Desde então, a música tem servido como ponte para reconstruir vidas, com apoio de parcerias institucionais, como o Exército.
Histórias que inspiram
Casos de transformação se multiplicam. O contrabaixista Antonino Tertuliano, que entrou no projeto aos 14 anos, hoje é integrante da Niederbayerische Philharmonie Orchester, na Alemanha. Sempre que volta ao Brasil, visita o Coque para motivar novos talentos: “Apresento minha realidade e digo que é possível conquistar o mundo”.
Outro exemplo é Cleybson da Silva, 21 anos, que perdeu a mãe para a Covid-19 e encontrou na música um caminho. Hoje cursa licenciatura em música na UFPE e vê o irmão mais novo já iniciando a mesma trajetória.
A violinista Ana Clara Gomes, de 17 anos, começou improvisando notas musicais desenhadas nas paredes de casa e ensaiando com uma caixa de sabão em pó como se fosse viola. Hoje, ensaia repertórios de Camargo Guarnieri e se prepara para sua primeira viagem internacional. Situação semelhante vive Pedro Martins, de 21 anos, que transformava a sala de casa em palco e agora, estudante da UFPE, viaja o mundo levando sua arte.
Paz em forma de som
O maestro José Renato Accioly, que lidera a orquestra, acredita que reunir jovens de diferentes origens e nacionalidades é a prova de que a música é uma linguagem universal. O repertório da turnê inclui clássicos internacionais e também composições brasileiras, como o frevo, para destacar as raízes culturais do país.
A iniciativa mostra como a música pode não apenas abrir portas individuais, mas também construir pontes coletivas. No bairro do Coque, antes marcado por tiroteios e pela ausência de perspectivas, hoje ecoam acordes que representam paz, cidadania e futuro.
A cada arco que desliza pelas cordas, os jovens reafirmam que sua história não é definida pela violência do território, mas pela força da arte. O mundo que parecia distante agora se aproxima em forma de palco, plateia e aplausos.
Transformação comunitária
Para famílias como a de Clayton Oliveira, pai de Cleybson, a mudança é visível: “Antes, criar filho no Coque era muito perigoso. Hoje, a música mudou tudo”. A comunidade, antes conhecida pelos índices de violência, agora é lembrada por produzir músicos de excelência, reconhecidos dentro e fora do Brasil.
O projeto já formou mais de mil jovens, muitos deles hoje professores, músicos profissionais ou estudantes universitários. São 400 alunos atualmente nas três unidades da orquestra, em Recife, Ipojuca e Igarassu.
Mais do que acordes, a orquestra constrói trajetórias. Do Coque para o Vaticano, das vielas do Recife para os palcos do mundo, os jovens da Orquestra Criança Cidadã provam que o futuro pode ser reinventado quando se transforma realidade com cultura, arte e solidariedade.
Fonte: Agência Brasil

