Vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas em 2022, o livro Enciclopédia Negra trouxe ao público mais de 550 biografias de personalidades negras cuja relevância histórica havia sido sistematicamente apagada das narrativas oficiais brasileiras. A obra, assinada por Flávio dos Santos Gomes, Lilia Moritz Schwarcz e com ilustrações de Suzane Lopes, não apenas se tornou referência na historiografia contemporânea, mas também ganhou vida como exposição itinerante, que percorreu cidades no Brasil e em Portugal.
Agora, o projeto expande suas fronteiras e público. Lançada no meio de 2025, a Enciclopédia Negra para Jovens Leitores adapta o texto original para crianças a partir dos nove anos, apresentando 82 personalidades negras selecionadas para inspirar novas gerações. O tom da obra é direto: “Agora chegou a hora de convidarmos vocês para essa nossa grande festa por um Brasil mais amplo, plural e onde caibam todas e todos nós”, afirma o prefácio.
A proposta, explicam os autores, é criar conexões entre personagens distantes no tempo, mas próximos em trajetórias, lutas ou profissões. Assim, o escultor mineiro Aleijadinho (1730-1814) aparece lado a lado com a pintora Maria Auxiliadora da Silva (1935-1974), ambos marcos das artes brasileiras. Do mesmo modo, a poesia de Cruz e Souza (1861-1898) dialoga com a de Mário de Andrade (1893-1945), aproximando universos literários.
O lançamento ocorreu durante a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), no centro histórico de Salvador, e contou com a participação de Lilia Schwarcz e Suzane Lopes. Na apresentação, as autoras reforçaram que o projeto é, por natureza, aberto e em constante construção. “A enciclopédia tem um ponto de começo, mas não tem um ponto final. Queremos que esses casos inspirem os leitores a pensar em outros nomes, da sua vida, da sua vizinhança, da sua família. O projeto é fadado a nunca terminar”, disse Lilia ao público.
Em entrevista à Agência Brasil, Lilia afirmou que a nova edição é consequência direta do impacto da obra original. “O projeto foi muito bem recebido, com exposições, adesão de artistas e capilaridade enorme. Achamos que seria importante dialogar também com o público jovem”, disse. Suzane Lopes destacou a responsabilidade de representar personagens históricos que, no passado, foram retratados de forma equivocada ou sob lentes brancas e eurocêntricas. “Trazemos uma leitura fiel e positiva, de pertencimento e poder. É fundamental que jovens tenham acesso lúdico e construtivo à própria história”, afirmou.
Um dos objetivos centrais da Enciclopédia Negra para Jovens Leitores é chegar às escolas, incentivando senso crítico e valorização da diversidade. “Hoje, muitos professores já abraçam essas pautas, mas precisam de material que amplie vocabulário e ferramentas para estimular os alunos. Nosso futuro está no chão da escola”, defendeu Lilia.
Além do lançamento juvenil, Schwarcz também celebrou outro reconhecimento: o Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria História e Arqueologia, recebido na semana anterior, pelo livro Imagens da Branquitude: a presença da ausência. A obra, fruto de duas décadas de trabalho, analisa o fenômeno da branquitude a partir de representações simbólicas e iconográficas. “Foram 20 anos lecionando o curso Lendo Imagens na USP e 10 anos em Princeton. Nesse tempo, fui descolonizando o conteúdo, incluindo artistas negros, indígenas e brasileiros. É um livro de vida”, explicou.
Tanto a Enciclopédia Negra quanto Imagens da Branquitude dialogam com uma pauta que vai além da literatura: tratam de disputas de memória, representatividade e identidade. Ao tornar acessível para crianças e jovens histórias que foram silenciadas, os autores reforçam o compromisso de reconstruir uma narrativa nacional mais justa e plural.
O projeto, que nasceu com ambição enciclopédica e sem ponto final definido, segue aberto a novas entradas, novos nomes e novos olhares — uma obra viva, que se renova com o tempo e com os leitores.
Fonte: Agência Brasil

