O termo “enredo”, tão central no universo do carnaval, carrega em sua própria origem o sentido de trama, envolvimento e captura. A etimologia disponível em registros linguísticos aponta que o substantivo “enredo” deriva do verbo “enredar”, ambos com raiz no latim rete, que significa rede. Assim como uma rede lançada ao mar envolve e captura peixes, o enredo, na arte, precisa envolver o público, prender a atenção e conduzir o espectador por uma narrativa que faça sentido do início ao fim.
Essa ideia é o ponto de partida do livro Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos, de Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, que chega à sua segunda edição, revista e ampliada, pela Mórula Editorial. Na nova versão, os autores incorporam reflexões sobre a profunda transformação vivida pelos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro a partir da segunda década do século XXI, quando temas históricos, sociais e identitários passaram a ocupar o centro da avenida com ainda mais força.
A obra se debruça sobre uma das mais genuínas criações da cultura popular brasileira: a forma que os sambistas cariocas desenvolveram, ao longo de quase cem anos, para contar e reinterpretar a história do Brasil. Enredos que, todos os anos, mobilizam cerca de 120 mil pessoas no Sambódromo, alcançam milhões de espectadores pela televisão e pelas plataformas digitais e, cada vez mais, transbordam para as salas de aula e os livros didáticos.
Em entrevista, os autores explicam que a exigência de um enredo nos desfiles não nasceu junto com as escolas de samba, mas foi herdada de outras manifestações carnavalescas. Segundo o historiador Luiz Antonio Simas, os desfiles das escolas de samba, como são conhecidos hoje, se consolidaram a partir de 1932, quando surge a ideia do cortejo organizado.
“Curiosamente, tivemos concursos de escolas de samba antes disso, organizados por José Espinguela, mas que se limitavam à escolha do melhor samba, sem desfile em cortejo”, explica Simas. Ele lembra que os enredos já faziam parte dos ranchos e das grandes sociedades carnavalescas, como o Ameno Resedá, fundado em 1907, conhecido por desfiles com temas de relevância cultural.
A grande inovação das escolas de samba, segundo os autores, foi redimensionar essa prática e criar uma relação inédita entre música e narrativa. Enquanto os ranchos desfilavam ao som das chamadas marchas-rancho, as escolas de samba foram, pouco a pouco, construindo o que hoje se conhece como samba-enredo.
Para Fábio Fabato, um marco fundamental dessa transformação ocorreu em 1939, quando a Portela decidiu estruturar seu desfile a partir de um tema único e coeso. “É quando surge, de fato, um samba pensado para servir a um enredo específico. Antes disso, o enredo visual e o samba cantado não precisavam necessariamente dialogar”, afirma.
Essa coesão entre narrativa, música e visual tornou-se, ao longo do tempo, a espinha dorsal do desfile. “Tudo começa no enredo”, resume Fabato. “Depois vem o samba-enredo, o desenho da bateria, as fantasias e as alegorias. Um grande carnaval nasce de um grande enredo.”
Simas destaca ainda uma singularidade do samba-enredo na música brasileira. “Ele é um gênero feito sob encomenda e, ao contrário de outros sambas urbanos, não é lírico, mas épico. Ele existe para contar uma história exemplar proposta pelo enredo”, explica.
A escolha do enredo, no entanto, é resultado de um processo complexo, que envolve disputas internas, questões financeiras e o peso criativo dos carnavalescos. Em muitos casos, a decisão passa pelo presidente da escola, especialmente quando há patrocínio envolvido. Em outros, carnavalescos com forte identidade autoral, como Leandro Vieira, conseguem impor seus temas e escrever suas próprias sinopses.
Com o passar do tempo, esse processo se sofisticou e passou a incluir novas figuras, como pesquisadores e enredistas, responsáveis por aprofundar o conteúdo histórico e conceitual dos temas. Ainda assim, como lembram os autores, não existe um modelo único: há casos de mudanças de enredo às vésperas do carnaval, mostrando que a dinâmica segue viva e imprevisível.
Para Simas e Fabato, o enredo é um quesito transversal, que influencia todos os outros. Um bom enredo favorece um samba mais consistente, melhora a harmonia, inspira soluções plásticas mais criativas e engaja a comunidade. “Ter um bom enredo é meio caminho andado”, resume Simas.
Mais do que vencer ou perder campeonatos, os enredos cumprem um papel pedagógico fundamental. Ao longo da história, as escolas de samba trouxeram para a avenida personagens e narrativas ausentes da história oficial, como Zumbi dos Palmares, Xica da Silva e Teresa de Benguela. “As escolas de samba operam muitas vezes como uma contranarrativa”, afirma Simas.
Fabato completa dizendo que o carnaval ensina por meio do afeto e da integração das artes. “Em um desfile, há música, dança, escultura, pintura, costura, carpintaria. É uma linguagem profundamente brasileira, criada para celebrar nossas histórias e nossos personagens.”
Assim, o enredo se afirma não apenas como o fio condutor do desfile, mas como uma poderosa ferramenta de memória, educação e identidade cultural.
Fonte : Agência Brasil

