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Exposição “Pop Brasil” na Pina Contemporânea resgata resistência artística à ditadura militar nos anos 1960 e 1970

Mostra celebra os 120 anos da Pinacoteca com 250 obras que dialogam com censura, indústria cultural e mudanças sociais no Brasil sob o regime militar

13/06/2025
© Levi Fanan/Divulgação

© Levi Fanan/Divulgação

Em comemoração aos seus 120 anos de fundação, a Pinacoteca de São Paulo inaugura sua maior exposição do ano na Pina Contemporânea: “Pop Brasil: vanguarda e nova figuração, 1960–1970”. Com curadoria de Pollyana Quintella e Yuri Quevedo, a mostra reúne 250 obras de mais de 100 artistas brasileiros e revisita um dos períodos mais turbulentos da história nacional, marcado pela repressão da ditadura militar, o surgimento da indústria cultural e profundas transformações sociais e comportamentais.

A exposição propõe um mergulho crítico e estético no modo como a arte brasileira dos anos 1960 e 1970 reagiu ao contexto político de opressão e censura, utilizando as ferramentas visuais e conceituais da Pop Art, movimento que teve origem no Reino Unido e ganhou projeção mundial com nomes como Andy Warhol e Roy Lichtenstein. No entanto, como destaca a curadoria, a versão brasileira dessa linguagem ganhou contornos próprios, refletindo subdesenvolvimento, desigualdade social e resistência política.

“Esta é a maior exposição do ano da Pinacoteca, neste ano super importante para o museu. A mostra também celebra os 60 anos de dois marcos fundamentais da arte contemporânea brasileira: as exposições Opinião 65, no Rio, e Propostas 65, em São Paulo, ambas realizadas um ano após o golpe civil-militar de 1964”, explica o curador Yuri Quevedo.

Arte como protesto e ocupação do espaço público

Logo na entrada, a exposição apresenta o Happening das Bandeiras, realizado originalmente em 1968 na Praça General Osório, no Rio de Janeiro. Participaram artistas como Flávio Motta, Nelson Leirner, Carmela Gross, Ana Maria Maiolino e Hélio Oiticica, autor da icônica bandeira “Seja marginal, seja herói” — símbolo da cultura marginal e da resistência contra o autoritarismo.

A ação coletiva buscava democratizar o acesso à arte por meio da ocupação do espaço público com mensagens serigrafadas em tecidos, desafiando o regime e seus limites impostos à liberdade de expressão.

Indústria cultural e ícones da música popular

A mostra também mergulha no universo da indústria cultural brasileira, então em formação, por meio de instalações e objetos que retratam figuras emblemáticas da Jovem Guarda. Destaque para o altar dedicado ao cantor Roberto Carlos, criado por Nelson Leirner, que abre uma sequência de obras que investigam o impacto da música popular na construção de um imaginário nacional — entre o apelo comercial e a resistência simbólica.

Censura, repressão e denúncia visual

O núcleo mais contundente da exposição reúne obras que abordam a repressão promovida pelo regime militar. Estão expostas fotografias do consagrado fotojornalista Evandro Teixeira, falecido recentemente. Uma das imagens mais impactantes retrata um estudante caindo após ser perseguido por agentes da ditadura.

A mostra inclui ainda caricaturas de generais, desenhos de presos políticos da coleção de Alípio Freire, além de instalações que subvertem os símbolos do autoritarismo, utilizando a ironia como arma contra a narrativa militarista.

“A Pop Art, com sua linguagem acessível e simbologia de massa, tornou-se um meio eficaz de denúncia. No Brasil, ela ganha um caráter singular, ao confrontar diretamente a violência do regime, expondo a precariedade tanto do aparato repressivo quanto da estrutura industrial nacional”, comenta Quevedo.

Corpos, comportamentos e liberdade

Outro aspecto importante da exposição é a abordagem das mudanças comportamentais e sociais que ocorriam no final dos anos 1960. A curadoria destaca obras que tratam da sexualidade, da liberdade corporal e da vida doméstica como espaço de resistência.

Segundo Quevedo, “essas obras mostram que o controle do regime não se limitava ao plano político, mas também invadia a intimidade das pessoas, tentando padronizar corpos e comportamentos. A reação artística surge como afirmação de liberdade — do corpo, da sexualidade, da ocupação da cidade e das relações interpessoais”.

Parangolés e participação do público

Um dos pontos altos da exposição é a presença de réplicas dos Parangolés, de Hélio Oiticica, apresentados originalmente na exposição Opinião 65, no Museu de Arte Moderna do Rio. Os Parangolés — capas, faixas e bandeiras confeccionadas com tecidos, plásticos e frases poéticas ou políticas — rompem a barreira entre obra e espectador. Ao vestirem os Parangolés, os visitantes deixam de ser meros observadores para se tornarem parte ativa da obra, ampliando a dimensão participativa e coletiva da arte.

Serviço e acesso

A exposição “Pop Brasil: vanguarda e nova figuração, 1960–1970” fica em cartaz na Pina Contemporânea até 5 de outubro. A entrada é gratuita aos sábados, e todas as informações sobre horários e agendamento podem ser consultadas no site oficial da Pinacoteca.

Com essa mostra, a Pinacoteca reafirma seu papel como instituição comprometida com a preservação da memória cultural e com o estímulo ao pensamento crítico, sobretudo em um momento em que o país revisita seu passado autoritário e seus reflexos na arte e na sociedade contemporânea.

Fonte: Agência Brasil

Tags: anos 60arte brasileiracultura marginalditadura militarexposição de arteHélio Oiticicaindústria culturalPinacoteca de São PauloPop Artresistência cultural
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