Jean D’Amérique, poeta, dramaturgo e romancista haitiano de renome internacional, trouxe sua obra ao Brasil pela primeira vez durante o Festival Artes Vertentes, realizado em Tiradentes (MG). Conhecido por utilizar a poesia como ferramenta de resistência e esperança diante das adversidades políticas e sociais do Haiti, o artista conversou com a Agência Brasil sobre sua trajetória, o impacto da arte em sua vida e os laços culturais entre Haiti e Brasil.
O autor, que já recebeu diversos prêmios ao longo da carreira, participa da 14ª edição do festival com leituras, debates e performances. Entre as apresentações, destaca-se a peça “A Catedral dos Porcos”, premiada na França, e a montagem de “Ópera Poeira”, que retrata a história de Sanité Belair, jovem revolucionária haitiana executada pelos franceses em 1802, interpretada no Brasil pela cantora Juçara Marçal sob direção de Jé Oliveira. A encenação faz paralelos com a realidade brasileira, onde muitos heróis e heroínas negros seguem invisibilizados pela historiografia oficial.
Durante a entrevista, Jean D’Amérique ressaltou a emoção de estar em território brasileiro e destacou as semelhanças culturais entre os dois países. “Estou aqui há três dias e vi pessoas que se parecem fisicamente comigo, então é a primeira coisa que mostra que temos coisas em comum, talvez por identidade. Também percebi semelhanças na música e no ritmo, heranças dos nossos ancestrais”, afirmou.
Além de escritor, o haitiano é diretor artístico do festival Transe Poétique, realizado em Porto Príncipe. A iniciativa nasceu da necessidade de criar no Haiti um espaço internacional de poesia, valorizando o país como centro de produção cultural. “Costumamos ver a Europa como referência, mas acredito que podemos construir nossas próprias estruturas em lugares periféricos. Não precisamos sempre buscar oportunidades fora, podemos criar algo em casa”, destacou.
O festival, que reúne diferentes formas de arte como teatro, dança, fotografia e cinema, busca encorajar jovens haitianos a seguirem o caminho da poesia. Para D’Amérique, a coragem de se expressar foi decisiva em sua vida. “Ao meu redor havia muita violência. Era mais fácil encontrar uma arma do que um livro. A poesia foi minha forma de resistir e encontrar esperança”, relembrou.
Mesmo diante da crise política e social que assola o Haiti, Jean D’Amérique afirma que a arte permanece sendo um espaço de resistência e de sobrevivência espiritual. “Nunca vivi em paz em meu país. Hoje a situação piora, mas a arte é a única parte onde o Haiti ainda vai bem. Criar é uma forma de lutar por uma vida melhor e de manter a esperança”, declarou.
Segundo ele, a poesia se tornou sua principal arma contra a injustiça social e a violência política. “Escrevo não apenas para mim, mas para dar voz às pessoas marginalizadas. Minha arte é também coletiva, porque carrega a dor de um povo e de um país”, explicou.
Apesar das dificuldades, o escritor mantém o compromisso de continuar o Transe Poétique. A próxima edição está prevista para setembro do ano que vem, e sua realização depende de esforços conjuntos. “Ainda enfrentamos muitos obstáculos, mas seguimos tentando manter viva essa iniciativa, porque acredito que o Haiti deve continuar sendo também um lugar de poesia”, afirmou.
A participação de Jean D’Amérique no Festival Artes Vertentes fortalece os laços culturais entre Haiti e Brasil e reafirma o papel da arte como resistência em meio à adversidade. Ao trazer sua voz para Tiradentes, o poeta haitiano amplia o alcance de sua mensagem: a de que a criação artística, mesmo em tempos de crise, é capaz de gerar esperança, construir memórias e inspirar mudanças.
Fonte: Agência Brasil

