Há quase seis meses à frente de um dos cargos mais simbólicos da diplomacia climática brasileira, a ativista Marcele Oliveira, de 26 anos, vem exercendo o papel de Campeã de Juventude da COP30 — a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que acontecerá em novembro de 2025, em Belém (PA). Comunicadora e líder comunitária nascida em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, Marcele tem como missão representar as vozes jovens e periféricas nos espaços globais de decisão sobre o futuro do planeta.
Escolhida entre 154 candidatos em um processo seletivo rigoroso, a jovem foi selecionada por sua trajetória no ativismo ambiental e por sua habilidade em articular redes de juventudes engajadas em causas socioambientais. Desde então, atua como embaixadora da juventude nas discussões da ONU e nas reuniões preparatórias para a conferência que deve reunir mais de 190 países na Amazônia.
Marcele entende a função como uma grande responsabilidade coletiva. “Eu não fui escolhida sozinha. O processo foi construído com outros jovens ativistas, e seguimos juntos como um mutirão até o fim da presidência brasileira da COP30”, explica.
Raízes do ativismo em Realengo
A trajetória de Marcele começou nas lutas territoriais da sua comunidade. Ela conta que, desde pequena, percebia as desigualdades entre as áreas mais arborizadas e ricas do Rio de Janeiro e os bairros periféricos, marcados pela escassez de áreas verdes. Foi então que se envolveu na mobilização pelo Parque de Realengo Verde, um movimento que denunciou o racismo ambiental e defendeu o direito das periferias a espaços de lazer, qualidade de vida e mitigação do calor extremo.
“A gente entendeu que não era acaso: existe uma escolha política e social sobre quais lugares terão árvores e sombra, e quais ficarão banhados em concreto. Isso é racismo ambiental”, resume.
A partir dessa mobilização, nasceu a Agenda Realengo 2030, que conecta os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU às realidades locais. As ações do movimento resultaram na criação de políticas públicas de parques urbanos no Rio de Janeiro — hoje, já são quase oito em andamento.
A juventude como força de transformação
Marcele acredita que as soluções climáticas devem nascer do território e da sabedoria popular. “As respostas já existem: são os parques, as hortas comunitárias, os telhados verdes, as cozinhas solidárias. Não estamos inventando nada novo, apenas pedindo que a adaptação climática chegue às periferias”, defende.
Ela também ressalta que muitas juventudes periféricas estão desconectadas de seus próprios biomas por necessidade — estudam, trabalham e raramente conseguem se engajar em debates globais. Por isso, sua missão é traduzir o que é discutido nas conferências internacionais em ações concretas que façam sentido na realidade local.
Uma representante brasileira no cenário mundial
Marcele é apenas a segunda pessoa no mundo a ocupar o cargo de Campeã de Juventude da COP. A primeira foi Leyla Hasanova, do Azerbaijão, durante a COP29. Inspirada nesse exemplo, a ativista defende que sua gestão deve servir de modelo para outras gerações.
“Eu recebi um caderno em branco e quero entregá-lo cheio de histórias, cores e resultados. A gente está falando de uma das conferências mais importantes da nossa geração, e quero que a juventude siga tendo espaço e voz na tomada de decisões globais”, afirma.
Expectativas para a COP30 em Belém
A conferência que ocorrerá em Belém do Pará é considerada estratégica: será a primeira vez que uma COP será sediada na Amazônia, região central no combate à crise climática. Marcele espera que o encontro represente um marco de implementação prática, após anos de negociações e promessas.
“Já passou o tempo de discutir responsabilidades. Precisamos ver dinheiro e ações para reflorestamento, energias renováveis e adaptação climática. Uma COP de sucesso é aquela que mobiliza recursos, mas também valoriza as tecnologias ancestrais dos territórios e o conhecimento das populações locais”, enfatiza.
O mutirão pela justiça climática
O conceito de “mutirão”, amplamente adotado pela presidência brasileira da COP30, simboliza o espírito de colaboração que Marcele leva adiante. “Todo mundo precisa ser ativista climático, independentemente de onde mora ou da cor que tem. Só que uns estão mais vulneráveis que outros — há quem durma com o barulho da chuva e há quem durma debaixo dela”, resume.
Para a ativista, o grande desafio é transformar a conferência em um movimento duradouro de justiça ambiental e social, com reflexos políticos e culturais. “A gente quer que a passagem da COP30 pelo Brasil seja lembrada como a maior mobilização por justiça climática da nossa geração”, diz.
Olhar para o futuro
Pensando no legado da conferência, Marcele reflete sobre o papel da juventude brasileira. “Se o Brasil conseguiu sair do mapa da fome duas vezes, por que não pode sair do mapa do risco climático? Só que isso só é possível se levarmos o Sul Global junto, dialogando com o Norte sobre as responsabilidades compartilhadas”, explica.
A expectativa, segundo ela, é que a COP30 marque o início de um novo ciclo de engajamento social e político. “Que esse movimento inspire as eleições de 2026, fortaleça políticas ambientais e mantenha viva a luta por um planeta mais justo e sustentável.”
Fonte: Agência Brasil

