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Literatura de pessoas com deficiência busca espaço e reconhecimento no cenário cultural brasileiro

Apesar de avanços na acessibilidade, escritores PCD enfrentam barreiras para participar de eventos literários e ter suas narrativas valorizadas

12/08/2025
© Rovena Rosa/Agência Brasil

© Rovena Rosa/Agência Brasil

Artistas com deficiência sempre estiveram presentes na história da arte e da cultura, mas o capacitismo estrutural manteve, por muito tempo, esses criadores à margem do reconhecimento público. No universo literário, essa exclusão se manifesta não apenas na escassa divulgação, mas também na dificuldade de circulação de suas obras e participação em eventos.

A escritora, pesquisadora e filóloga Amanda Soares, 25 anos, criadora do perfil PCD Perigosa no Instagram, chama atenção para um ponto central: a necessidade de reconhecer pessoas com deficiência como sujeitos produtores de literatura. Para ela, a arte é uma ferramenta poderosa para que histórias e experiências de vida desse grupo ganhem visibilidade e sejam preservadas como parte da memória coletiva.

“A literatura é responsável por documentar o mundo e nos fazer refletir sobre nosso tempo. Mas o que realmente sabemos sobre pessoas com deficiência além dos temas de acessibilidade e inclusão? Precisamos estudar as narrativas produzidas por essas pessoas e também as criadas sobre elas”, afirmou, durante oficina na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), em Salvador.

Barreiras além do digital

Amanda ressalta que a presença de escritores com deficiência em eventos literários é rara. Questões financeiras e estruturais dificultam a participação física — e a arte no Brasil, segundo ela, já é um ambiente desafiador para qualquer artista. No caso de autores PCD, as barreiras se ampliam.

Ela argumenta que, apesar da relevância do meio digital para a divulgação da literatura produzida por pessoas com deficiência, o contato presencial tem um valor insubstituível. “É nesse contato que reconhecemos nossa humanidade compartilhada. Um jornalista sem deficiência pode se identificar com minhas experiências, assim como eu posso me identificar com as dele. Essa troca é essencial para construir redes e memórias.”

Mapeamento para políticas públicas

O cenário de desconhecimento sobre escritores PCD no Brasil pode estar prestes a mudar. Em 2024, o Ministério da Cultura e a Universidade Federal da Bahia iniciaram o Mapeamento Acessa Mais, com o objetivo de identificar artistas, agentes culturais e profissionais que atuam na área de acessibilidade cultural.

A proposta é criar uma base de dados que ajude a formular políticas públicas voltadas à inclusão plena dessa população no setor cultural. O levantamento abrange todos os estados brasileiros e inclui artistas com e sem deficiência que trabalham para tornar a cultura mais acessível.

Amanda acredita que essa iniciativa será fundamental para dimensionar a produção literária PCD e conhecer seus protagonistas. “Falamos muito de acessibilidade e inclusão como se fossem o objetivo final, mas elas são ferramentas. Para defendê-las de forma eficaz, precisamos entender quem as utiliza e por quê.”

Além das cotas

A escritora também levanta uma reflexão crítica sobre políticas afirmativas. Embora reconheça a importância das cotas, ela aponta que a simples existência desse mecanismo não garante o acesso.

“O corpo com deficiência intelectual, por exemplo, muitas vezes precisa de apoio para preencher formulários ou participar de processos seletivos. Sem políticas que contemplem essa realidade, estamos definindo quem pode ou não acessar as cotas”, observou.

Ela defende medidas que incluam orientação prática e acompanhamento especializado para que esses artistas consigam não apenas se inscrever, mas também se manter ativos na cena cultural.

Reconhecimento e pertencimento

A programação da Flipelô, que se encerra neste domingo, mostrou que a presença de autores com deficiência enriquece o evento, trazendo novas perspectivas e debates. No entanto, para que essas participações se tornem comuns, será preciso romper com a lógica da invisibilidade e investir em mecanismos de apoio concretos.

A luta pela valorização da literatura PCD é, em essência, uma luta pelo direito à expressão e à memória. É garantir que as histórias contadas por essas vozes não fiquem restritas a nichos, mas que façam parte do acervo cultural brasileiro de forma plena.

Para Amanda e outros artistas, o objetivo não é apenas abrir portas, mas também garantir que esses espaços sejam ocupados de forma digna, contínua e reconhecida. Como ela resume, “quem controla a narrativa, controla a memória — e quem não está na memória, corre o risco de ser esquecido”.

Mais informações sobre a programação da Flipelô estão disponíveis em flipelo.com.br.

Fonte: Agência Brasil

Tags: acessibilidade culturalAmanda SoaresCultura Brasileiraescritores com deficiênciaFlipelôLiter Defliteratura inclusivaMapeamento Acessa MaisPCD Perigosapolíticas públicas
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