Árvores que alcançam 30 metros de altura, raízes que ultrapassam o tamanho de uma pessoa e um potencial climático superior ao da floresta amazônica. Assim são os manguezais amazônicos, ecossistemas vitais que retiram da atmosfera até três vezes mais gás carbônico do que as florestas de terra firme. No Brasil, 80% dessas áreas estão no bioma amazônico, distribuídas entre Maranhão, Pará e Amapá.
É justamente nessa região que está o maior território contínuo de manguezais com proteção legal do planeta, concentrado em quatro reservas extrativistas (resex) nos municípios paraenses de Bragança, Tracuateua, Augusto Corrêa e Viseu. Nessas áreas, o Projeto Mangues da Amazônia trabalha com monitoramento, reflorestamento e mobilização comunitária para conservar o ecossistema.
“A gente visita as comunidades, apresenta os mapas e escuta onde há extração de madeira. Depois fazemos o georreferenciamento, checamos in loco, e entregamos o resultado para lideranças locais e prefeituras”, explica o coordenador-geral do projeto, Marcus Fernandes, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA).
Segundo ele, embora a retirada de madeira nas reservas não seja ilegal, ela exige autorização e comunicação ao ICMBio. No entanto, há relatos de que muitos aproveitam as brechas e cortam madeira em locais não informados. O material é usado, por exemplo, na produção de carvão para padarias e olarias.
Além disso, o projeto faz o mapeamento participativo da fauna, especialmente dos caranguejos. “Junto com os caranguejeiros, realizamos censos que medem peso, tamanho e proporção de machos e fêmeas. Isso nos ajuda a entender a saúde ecológica da área”, pontua Fernandes.
Outro eixo é o mapeamento genético das árvores, essencial para orientar o reflorestamento com espécies mais adaptáveis. “Quanto maior a variabilidade genética, mais resiliente será a floresta. É isso que buscamos: uma floresta adaptável às mudanças climáticas”, afirma o professor.
Guardiões de carbono
A relevância dos mangues não se restringe à biodiversidade. Eles são verdadeiros “sumidouros de carbono”, capazes de armazenar grandes volumes de CO₂ no solo encharcado, que evita a liberação do gás. O projeto já mediu que, em média, um hectare de manguezal amazônico armazena 600 toneladas de carbono — valor superior à média mundial.
Com árvores de grande porte, a capacidade de retenção aumenta ainda mais. Essa característica torna os manguezais aliados essenciais no combate às mudanças climáticas. Mas o equilíbrio é frágil. A redução de chuvas, por exemplo, compromete a função do solo como depósito de carbono.
“Com menos água, o solo se oxigena mais, e o processo de decomposição acelera, liberando gás carbônico em vez de retê-lo”, alerta Hudson Silva, pesquisador da UFPA responsável pelo monitoramento de emissões no projeto. Segundo ele, a precipitação anual já caiu de 3 mil mm para 2 mil mm na região.
Fernandes completa com um alerta contundente: “A extinção dos manguezais pode liberar uma verdadeira bomba de carbono. E isso afeta toda a costa brasileira, com avanço do mar, erosão e perdas ambientais gigantescas.”
Reconhecimento global
O Brasil é o segundo país do mundo em extensão de manguezais, com cerca de 14 mil km², atrás apenas da Indonésia. No entanto, graças à proteção legal garantida por 120 unidades de conservação, o país detém a maior área contínua desse tipo de ecossistema com preservação oficial, segundo o ICMBio.
“Quando se fala em Amazônia, geralmente só se pensa na floresta de terra firme. Mas é preciso incluir os manguezais nesse debate. Eles são parte da Amazônia e são estratégicos”, ressalta John Gomes, gestor do projeto.
O Mangues da Amazônia nasceu do trabalho do Laboratório de Ecologia de Manguezal (LAMA) da UFPA. Está atualmente no segundo ciclo de execução, patrocinado pelo Programa Petrobras Socioambiental, que investe R$ 1,5 bilhão em 160 projetos no país até 2029. A meta do ciclo atual, entre 2024 e 2026, é reflorestar mais 17 hectares — o primeiro ciclo (2021–2022) recuperou 14 hectares.
“O retorno é imenso: para cada R$ 1 investido, o retorno social e ambiental estimado é de R$ 7”, destaca Sue Wolter, gerente de Direitos Humanos da Petrobras. Segundo ela, a iniciativa está entre as de maior impacto do programa, tanto na preservação ambiental quanto no fortalecimento social de comunidades tradicionais.
Um ecossistema invisibilizado
Os manguezais abrigam espécies como caranguejos, ostras, peixes, moluscos, aves e até mamíferos e répteis. Em Ajuruteua, próximo à Vila dos Pescadores, por exemplo, aves como guarás e biguás fazem ninhos com restos de redes de pesca em meio ao verde vibrante do mangue.
Ainda assim, esse ecossistema é pouco lembrado nas políticas de preservação ambiental. “O manguezal amazônico precisa ganhar visibilidade e prioridade. É nosso patrimônio ambiental, social e climático”, afirma Gomes.
A continuidade do projeto Mangues da Amazônia é, portanto, estratégica não só para a região Norte, mas para todo o país — e, indiretamente, para o equilíbrio climático do planeta.
Fonte: Agência Brasil

