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Medicamentos de uso comum podem comprometer a direção e aumentar riscos no trânsito, alerta Abramet

Diretriz apresentada durante congresso em Salvador lista fármacos que afetam cognição e coordenação motora, ampliando o perigo de sinistros

04/10/2025
© Marcello Casal JrAgência Brasil

© Marcello Casal JrAgência Brasil

A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem reforçando nos últimos anos a preocupação com o avanço da epidemia de transtornos mentais em escala global, incluindo quadros de depressão e ansiedade. Esse cenário, que já representa um grande desafio para os sistemas de saúde, ganha contornos ainda mais complexos quando se considera a automedicação, prática comum em diversos países, entre eles o Brasil.

O alerta se torna ainda mais grave ao relacionar o uso de determinados remédios com a segurança no trânsito. Durante o 16º Congresso Brasileiro de Medicina do Tráfego, realizado em Salvador, especialistas destacaram que substâncias como antidepressivos, ansiolíticos, relaxantes musculares, antialérgicos e até anti-inflamatórios podem comprometer a capacidade de dirigir.

De acordo com Adriano Isabella, diretor da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet), uma nova diretriz da entidade lista e classifica medicamentos que interferem na cognição e na função motora, elevando o risco de acidentes. “O ato de dirigir é extremamente complexo e depende da integração dos sentidos humanos. Qualquer substância que altere essa dinâmica coloca em risco não apenas o motorista, mas todos ao seu redor”, explicou.

Fatores de risco

O impacto de um medicamento na direção não depende apenas de sua formulação. A intensidade e a duração dos efeitos podem variar conforme a idade, peso, metabolismo, dose, horário de administração e até a combinação com álcool. Segundo Isabella, esses fatores ampliam a imprevisibilidade, reforçando a necessidade de conscientização da população.

Analgésicos e opióides

Enquanto o uso de substâncias como paracetamol ou ácido acetilsalicílico não apresentou correlação com acidentes de trânsito, estudos revelaram que os opióides elevam significativamente os riscos. Pesquisas apontam que motoristas sob efeito desses fármacos têm até oito vezes mais chances de sofrer ferimentos graves e cinco vezes mais de morrer em decorrência de acidentes.

Relaxantes musculares

Medicamentos como carisoprodol e ciclobenzaprina mostraram impacto negativo em simuladores de direção. Entre os efeitos observados estão sedação, lentidão de raciocínio, falhas de atenção, visão turva e perda de equilíbrio. “O mais preocupante é que muitos motoristas não percebem essas alterações, acreditando estar em plenas condições de conduzir”, destacou Isabella.

Ansiolíticos, sedativos e hipnóticos

Os benzodiazepínicos, usados por cerca de 2% da população adulta brasileira, aumentam de forma significativa a probabilidade de envolvimento em acidentes. Já a buspirona não apresentou efeitos relevantes na condução. Hipnóticos do grupo Z, por sua vez, tiveram comprovação de impacto negativo, afetando memória, atenção e reflexos.

Antidepressivos e antialérgicos

Entre os antidepressivos, os tricíclicos chamam atenção pelo risco elevado, especialmente em idosos. Mesmo doses noturnas em pequena quantidade comprometem a condução, comparando-se a motoristas alcoolizados. Já os inibidores seletivos de serotonina (ISRS), como a fluoxetina, tendem a ser melhor tolerados. No entanto, medicamentos como a trazodona apresentam efeitos colaterais significativos, como sonolência, perda de memória e prejuízos motores.

No caso dos antialérgicos, os de primeira geração — como difenidramina e dexclorfeniramina — estão associados a graves prejuízos na direção. Substâncias de segunda geração, como loratadina e cetirizina, podem também afetar o desempenho, embora de forma menos acentuada. Já os de terceira geração, como fexofenadina, demonstraram segurança maior nesse aspecto.

Antipsicóticos e derivados da cannabis

Grande parte dos antipsicóticos é sedativa e pode reduzir a capacidade de resposta ao volante. Além disso, medicamentos derivados da cannabis que contêm THC prejudicam cognição, visão e coordenação motora, com efeitos que podem durar horas.

Conscientização e prevenção

O conjunto de evidências apresentado reforça a importância de médicos orientarem seus pacientes sobre os riscos relacionados ao uso de medicamentos e a direção. Também exige maior responsabilidade individual dos motoristas, que precisam compreender que a automedicação pode colocar vidas em perigo.

Para a Abramet, a divulgação dessa diretriz representa um passo fundamental na prevenção de acidentes de trânsito no Brasil. Combinada a campanhas de conscientização e fiscalização, a medida pode salvar milhares de vidas todos os anos.

Fonte: Agência Brasil

Tags: Abrametautomedicaçãodireção seguramedicamentosOMSprevenção de acidentespsicotrópicossaudeSegurança ViáriaTrânsito
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