O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, reforçou o papel estratégico dos bancos de desenvolvimento e do Estado na promoção da inovação e da pesquisa científica, especialmente entre os países do Sul Global. A declaração foi feita durante a cúpula do Brics, realizada nos dias 6 e 7 de julho, no Rio de Janeiro, e durante seminário na sede do BNDES, no dia 9, sobre transição energética e sustentabilidade.
Mercadante ressaltou que os países do bloco — que inclui Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Indonésia — estão puxando uma nova agenda de articulação entre as nações em desenvolvimento, com vistas à reconstrução de uma governança multilateral mais justa e cooperativa.
“O Sul Global precisa ser sujeito histórico na reconstrução de um novo pacto entre as nações, restabelecendo relações multilaterais, o respeito mútuo, e evitando a imposição de uma ordem monopolar e autoritária, que jamais contribuiu para a paz ou para o progresso da humanidade”, afirmou o presidente do BNDES.
Estado e inovação
Em sua fala, Mercadante enfatizou que a inovação tecnológica não avança sem o apoio direto do Estado, sobretudo em contextos de risco. Segundo ele, é papel das instituições públicas correr riscos que o mercado privado evita, promovendo assim o desenvolvimento de soluções inéditas para os desafios nacionais.
“Inovação é risco. Sem o Estado como parceiro, ela se retrai. Precisamos de mais Estado e mais cooperação com o setor privado. Não temos modelos a copiar, mas temos um caminho próprio, como país grande e com muita história”, argumentou.
Relação com a China e defesa do multilateralismo
Ao tratar das relações bilaterais dentro do Brics, Mercadante exaltou a importância da China como parceira estratégica, especialmente no avanço tecnológico, rechaçando qualquer incômodo brasileiro com o crescimento do país asiático.
“Se tem gente no planeta que se incomoda com o êxito da experiência do crescimento da China, não é o Brasil”, pontuou.
A fala do presidente do BNDES foi endossada pelo embaixador chinês no Brasil, Zhu Qingqiao, que também participou do evento. O diplomata criticou o protecionismo de países como os Estados Unidos e ressaltou a importância da cooperação entre os membros do Brics.
“O Brics posiciona-se do lado correto da História, defendendo a paz, o desenvolvimento e o multilateralismo. Rejeitamos hegemonias e medidas unilaterais que minam a ordem internacional”, destacou Zhu.
Edital para centros de inovação recebe recorde de propostas
Durante o seminário, Mercadante apresentou os resultados parciais do edital lançado pelo BNDES em parceria com a Finep para a criação ou ampliação de centros de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação (PD&I) no Brasil. O edital recebeu 618 propostas, que somam R$ 57,4 bilhões em investimentos, dos quais R$ 51,9 bilhões foram solicitados ao BNDES e à Finep.
Embora o orçamento original do edital seja de R$ 3 bilhões, Mercadante sinalizou que as instituições buscarão formas de apoiar os melhores projetos, sinalizando flexibilidade e compromisso com o avanço tecnológico do país.
“A universidade não pode ser apenas um centro de produção de teses. Ela precisa se voltar para a produção e para a inovação. É isso que transforma a pauta de exportações e impulsiona o desenvolvimento nacional”, afirmou.
Os projetos são variados e envolvem tanto empresas brasileiras quanto multinacionais com sede na Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Holanda, Suíça, EUA e outros países. Do total de propostas, 368 têm como foco exclusivo a implantação de novos centros de PD&I, com investimento previsto de R$ 37,8 bilhões. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste somam 201 propostas, com potencial de R$ 16,1 bilhões em investimentos.
Geração de empregos e capacitação
As propostas indicam ainda a contratação de 4.501 mestres, 2.754 doutores e mais de 28 mil profissionais em todo o Brasil, reforçando o impacto positivo do edital na geração de empregos qualificados. Em média, cada proposta prevê 11,7 pesquisadores altamente qualificados e 46 novos postos de trabalho.
Os centros de PD&I envolvem desde pesquisa básica e aplicada, até o desenvolvimento de produtos, testes e validações, além de colaboração com universidades e instituições científicas. O BNDES destaca que incentivos públicos são essenciais para atrair investimentos em setores estratégicos — como eletrônica, farmacêutica e energia limpa — repetindo modelos de sucesso já utilizados em países como China, Índia e Reino Unido.
Brics: peso global
O bloco Brics representa 48,5% da população mundial, 39% do PIB global e 23% do comércio internacional. Em 2024, os países do bloco foram responsáveis por 36% das exportações brasileiras e por 34% das importações. O crescimento do bloco e sua atuação coordenada são vistos como instrumentos-chave para equilibrar o sistema internacional de poder e promover desenvolvimento sustentável.
Ao encerrar sua fala, Mercadante voltou a defender um papel ativo do Brasil no cenário internacional, por meio do investimento em inovação, ciência e tecnologia, fortalecendo laços estratégicos com os parceiros do Sul Global.
Fonte: Agência Brasil

