A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) anunciou neste sábado (13) a resolução de um dos casos mais emblemáticos da história da música brasileira e das ditaduras militares sul-americanas: a morte do pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, desaparecido em 18 de março de 1976, em Buenos Aires, foi finalmente confirmada. O músico foi morto a tiros e enterrado sem identificação em uma vala comum na periferia da capital argentina.
Tenório, como era conhecido no meio artístico, estava em turnê pela América do Sul acompanhando Vinícius de Moraes e Toquinho quando saiu do Hotel Normandie, na região central da cidade, e nunca mais foi visto. A revelação põe fim a quase cinco décadas de incertezas sobre o paradeiro do pianista, cuja trajetória foi interrompida aos 34 anos, poucos dias antes do golpe que instalaria a ditadura militar na Argentina.
Reconhecimento por datiloscopia
De acordo com informações da Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF), o reconhecimento foi possível graças a um processo de datiloscopia — comparação das impressões digitais de cadáveres não identificados. O corpo de Tenório foi encontrado no dia 20 de março de 1976 em um terreno baldio na região de Tigre, próximo a Buenos Aires. A vítima apresentava marcas de disparos de arma de fogo.
Os registros estavam arquivados em processos judiciais da Procuraduría de Crímenes contra la Humanidad, que investigava cadáveres encontrados em vias públicas entre 1975 e 1983. A partir da ordem da Cámara Federal de Apelaciones en lo Criminal y Correccional de Buenos Aires, a EAAF realizou a comparação que confirmou a identidade de Tenório. Ainda não se sabe se será possível realizar a exumação no Cemitério de Benavídez, onde o corpo teria sido sepultado, para coletar material genético.
Operação Condor
O caso de Francisco Tenório está diretamente relacionado à chamada Operação Condor, aliança entre as ditaduras do Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia, que atuaram em conjunto na década de 1970 para perseguir opositores políticos. O pianista brasileiro acabou vítima desse aparato repressivo, que envolveu sequestros, torturas, execuções sumárias e desaparecimentos forçados.
Segundo a CEMDP, a confirmação da morte de Tenório reforça a importância do intercâmbio de informações entre países da região. O procedimento inclui a coleta de dados datiloscópicos de desaparecidos políticos brasileiros no exterior e de amostras de sangue de familiares, que são compartilhados com autoridades locais.
Acompanhamento do caso
A comissão informou que acompanhava o caso Tenório há anos e que o resultado da investigação foi comunicado imediatamente à família do músico. Em nota, a CEMDP afirmou que “segue à disposição para oferecer todo o apoio necessário aos familiares neste processo, assim como para colaborar com os esforços voltados à localização dos remanescentes humanos do artista brasileiro”.
O anúncio reacende o debate sobre memória e justiça na América Latina, especialmente em relação às vítimas da violência de Estado durante os regimes militares. A confirmação da execução de Tenório não apenas soluciona um mistério histórico, mas também reforça a luta por verdade e reparação.
Legado interrompido
Francisco Tenório Cerqueira Júnior era um pianista de talento reconhecido e colaborava com alguns dos maiores nomes da música brasileira. Ao lado de Toquinho e Vinícius de Moraes, ele participava de turnê que projetava a música popular brasileira no exterior. Sua morte violenta representou uma perda irreparável para a cena artística do país e deixou marcada a memória de colegas e admiradores.
O reconhecimento oficial de seu assassinato quase 50 anos depois carrega o peso de revelar não apenas o destino do músico, mas também a brutalidade do aparato repressivo que vitimou milhares de pessoas na região.
Um passo para a memória e justiça
Casos como o de Tenório reforçam a necessidade de preservar a memória histórica e de garantir justiça às vítimas da repressão política. O trabalho da CEMDP e da EAAF evidencia como a ciência forense, associada ao compromisso político com os direitos humanos, pode ajudar a devolver às famílias respostas que foram negadas por décadas.
A resolução desse caso emblemático reafirma que, mesmo passados quase 50 anos, a busca pela verdade continua sendo um dever de Estado e da sociedade. A história de Francisco Tenório Cerqueira Júnior não será esquecida: ela permanece como símbolo da violência das ditaduras, mas também da resistência em manter viva a memória das vítimas.
Fonte: Agência Brasil

