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Primeiro arquiteto negro do Brasil dá nome a edifício histórico no centro de São Paulo

Reconhecimento a Joaquim Pinto de Oliveira, o Tebas, marca nova fase do Edifício Misericórdia, que será transformado em moradia por meio do programa de retrofit da prefeitura paulistana

31/05/2025
© Cadu Pinotti/Agência Brasil

© Cadu Pinotti/Agência Brasil

A Prefeitura de São Paulo deu início a uma importante homenagem histórica e simbólica ao renomear o tradicional Edifício Misericórdia, localizado no centro da capital, como Edifício Tebas, em reverência a Joaquim Pinto de Oliveira (1721–1811), reconhecido como o primeiro arquiteto negro do Brasil. Escravizado durante o século XVIII, Tebas exerceu papel fundamental em diversas construções emblemáticas da cidade e, após séculos de invisibilidade, começa a ocupar o lugar de destaque que merece na história da arquitetura paulista e brasileira.

O projeto de requalificação urbana foi autorizado no dia 21 de maio de 2025 e marca o início de uma nova fase para o imóvel, que será transformado em habitação por meio do programa de retrofit promovido pela prefeitura. O edifício rebatizado terá 43 apartamentos residenciais, sendo uma das unidades destinada ao aluguel social, além de espaços de uso público, como restaurante de alimentação orgânica e área multiuso com deck voltado ao calçadão.

Tebas atuava em diversas construções durante as últimas décadas do século XVIII, tendo aprendido técnicas de alvenaria com seu senhor, o mestre pedreiro português Bento de Oliveira Lima. Ele foi responsável por obras como a fachada da Igreja da Ordem Terceira do Carmo e pela construção do Chafariz da Misericórdia, justamente no terreno onde hoje está o edifício que leva seu nome. Nessa obra, chegou a atuar como engenheiro hidráulico, um feito notável para a época, especialmente para um homem escravizado.

O apelido Tebas, segundo estudiosos, tem origem na língua africana kimbundu e significa algo como “homem que tudo faz” — um reflexo direto da sua capacidade técnica e multifuncionalidade no canteiro de obras.

Apesar de sua extensa contribuição à cidade, o reconhecimento oficial como arquiteto só veio em 2018, mais de dois séculos após sua morte. Documentos descobertos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) comprovaram sua autoria em obras até então atribuídas a outros nomes. Em 2020, a prefeitura instalou uma escultura em sua homenagem na Praça Clóvis Bevilácqua, próxima à Sé, como parte de um programa de valorização da presença negra na formação histórica da cidade.

A requalificação do edifício é parte de um conjunto de iniciativas que buscam revitalizar o centro da capital paulista. Atualmente, 23 projetos de retrofit estão aprovados pela prefeitura, totalizando 2.112 novas unidades habitacionais, das quais parte é destinada à habitação de interesse social. Além disso, cinco prédios já receberam o Certificado de Conclusão de Requalificação, e outros 33 projetos estão em fase de análise.

Essas medidas integram uma política urbana mais ampla de incentivo à moradia no centro, reutilizando imóveis subutilizados para repovoar áreas centrais e dinamizar a economia local. Ainda assim, o programa tem sido alvo de críticas na Câmara Municipal, principalmente por ser considerado mais custoso do que alternativas como os projetos de aluguel social.

Para além da política habitacional, o renome do Edifício Tebas representa um gesto de reparação simbólica. A arquitetura colonial brasileira, durante séculos, foi marcada por nomes brancos e europeus, apagando a contribuição de homens e mulheres negros, muitos dos quais escravizados. A retomada da memória de Tebas insere um novo capítulo nessa narrativa, reforçando a importância de reconhecer os pilares que sustentam não apenas a cidade física, mas também a história cultural brasileira.

“Quando olhamos para o centro de São Paulo, precisamos enxergar também as mãos negras que o construíram”, afirmou um representante do Instituto Tebas, organização que atua pela valorização da arquitetura negra e pelo resgate da memória de Joaquim Pinto de Oliveira. O instituto tem trabalhado em parceria com a prefeitura para ampliar a difusão do legado de Tebas, inclusive em ações educativas e culturais.

A expectativa é que as obras de retrofit estejam concluídas nos próximos meses, permitindo que novas famílias habitem o edifício rebatizado. Mais do que um novo nome em uma fachada, o Edifício Tebas simboliza o esforço de uma cidade em reconhecer sua verdadeira origem e valorizar as histórias que, por muito tempo, ficaram à margem.

Fonte: Agência Brasil

Tags: arquitetura negrachafariz da MisericórdiaEdifício Misericórdiahabitação socialhistória negraJoaquim Pinto de Oliveiramoradia no centropatrimônio históricoprefeitura de São Pauloretrofitrevitalização urbanaSão PauloTebas
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