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Procon-SP inicia aplicação de multas a estabelecimentos que descumprem protocolo “Não se Cale”

Apenas 25% dos espaços fiscalizados estão em conformidade; medida busca garantir segurança e acolhimento a mulheres em casos de assédio e violência

21/09/2025
© Rovena Rosa/Agência Brasil

© Rovena Rosa/Agência Brasil

O protocolo Não se Cale, criado para proteger mulheres em situações de assédio e violência, passa a ter caráter mais rigoroso em São Paulo. Depois de uma pesquisa revelar que apenas 25% dos 131 estabelecimentos fiscalizados estão em conformidade com a lei, o Procon-SP anunciou que iniciará a aplicação de multas aos locais que não cumprirem as exigências. A medida, em vigor desde novembro de 2023, pretende fortalecer a rede de apoio e ampliar a segurança das mulheres em bares, restaurantes, casas noturnas e outros ambientes de lazer.

A diretora de Assuntos Jurídicos do Procon-SP, Patrícia Dias, explicou que, até agora, os estabelecimentos tiveram tempo suficiente para se adequar. “Fizemos reuniões com o segmento, divulgamos no site e viemos orientando. Agora, qualquer estabelecimento que não cumprir as disposições da lei será sancionado com multa”, afirmou.

As multas previstas variam de 200 a 3 milhões de UFESPs (unidades fiscais do Estado de São Paulo), sendo que cada UFESP está cotada atualmente em R$ 34,26. Isso significa que, em casos mais graves, a sanção pode ultrapassar os R$ 100 milhões.

Orientação e fiscalização

Antes da adoção das penalidades, o Procon-SP e a Secretaria da Mulher do estado organizaram cursos de capacitação e ações de orientação voltadas aos donos e gestores de estabelecimentos. Os locais receberam informações detalhadas sobre como agir em casos de denúncia e como treinar seus funcionários para identificar e lidar com situações de violência contra mulheres.

Entretanto, muitas casas de lazer e entretenimento ignoraram as recomendações. A maioria dos locais notificados não possuía cartazes e placas informativas visíveis nem oferecia treinamento adequado aos funcionários. Essas falhas foram determinantes para que o órgão passasse a aplicar medidas punitivas.

Falta de obrigatoriedade inicial e críticas

Para a advogada Ana Paula Braga, especialista em direito das mulheres, o baixo índice de adesão demonstra que a falta de obrigatoriedade e fiscalização mais severa desde o início prejudicou a efetividade da iniciativa. “O estado de São Paulo fez uma iniciativa de capacitação, mas um dos pontos é que faltou a obrigatoriedade. (…) Obrigar esses estabelecimentos a participar disso, com fiscalização adequada, teria acelerado a adesão”, destacou.

Segundo a especialista, muitos espaços de lazer ainda não compreenderam a relevância da política de proteção. Além de uma responsabilidade social, o protocolo também representa uma forma de preservar a reputação das empresas. “Se o estabelecimento não está devidamente preparado e acontece um caso de violência ali, ele se torna responsável. Ele pode ter que indenizar a vítima ou pode responder de acordo com as sanções do Código de Defesa do Consumidor, além dos riscos reputacionais. Com as redes sociais, muitos casos estão sendo levados para o Instagram ou TikTok, e esse estabelecimento acaba ficando realmente queimado”, explicou.

Impacto da capacitação

De acordo com especialistas, quando os locais cumprem as regras do protocolo, o impacto é positivo tanto para as mulheres quanto para os próprios estabelecimentos. Ambientes que adotam políticas claras contra o assédio transmitem mais confiança às frequentadoras, que se sentem encorajadas a denunciar e a procurar ajuda.

“Quando a gente tem um ambiente que está devidamente capacitado, a mulher se sente mais encorajada a tomar uma medida, ela acredita que vai ter esse acolhimento. Um estabelecimento que tem essa política clara também coíbe os caras a não assediarem. Tudo vai se retroalimentando”, reforçou Ana Paula Braga.

Responsabilidade compartilhada

O protocolo “Não se Cale” não é apenas uma exigência legal, mas um instrumento de transformação social. Ao exigir que bares, restaurantes e casas noturnas criem canais visíveis de denúncia e promovam treinamento de pessoal, a iniciativa busca mudar a cultura de silêncio em torno da violência contra a mulher.

Para o Procon-SP, a adoção efetiva das medidas não deve ser vista apenas como uma obrigação punitiva, mas como um compromisso com a segurança de clientes e funcionários. Ao mesmo tempo, a aplicação de multas pesadas funciona como um mecanismo de pressão para acelerar a adaptação de locais ainda resistentes.

Perspectivas

Com a fase de orientação encerrada e a fiscalização mais rigorosa em andamento, o Procon-SP acredita que os índices de adesão devem aumentar nos próximos meses. A expectativa é que, diante da possibilidade de sanções milionárias e da pressão social, os estabelecimentos invistam mais rapidamente em treinamento, sinalização e políticas internas.

O governo estadual reforça que o protocolo se soma a outras iniciativas de combate à violência contra a mulher, ampliando a rede de proteção e promovendo ambientes mais seguros de convivência. A aposta é que, ao longo do tempo, a adesão seja total e naturalizada, garantindo que situações de assédio sejam tratadas com a seriedade necessária.

Fonte: Agência Brasil

Tags: assédio contra mulheresbares e restaurantesfiscalizaçãomultasProcon-SPprotocolo Não se CaleSão PauloSecretaria da Mulherviolência de gênero
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