Aos 26 anos, o psicólogo Alexander Borges deixou Cuiabá para viver com a noiva no Rio de Janeiro. Chegou com esperança, mas se deparou com um mercado de trabalho fechado e uma rotina marcada pela dependência financeira dos pais e da sogra. A angústia e a tristeza tomaram conta, até que uma descoberta mudou o rumo de sua trajetória: o programa estadual Rio Sem LGBTIfobia.
“Minha noiva descobriu o programa, disse que eles tinham psicólogos e ajudavam com questões de emprego”, conta Alexander. A partir do acolhimento recebido, ele foi encaminhado a um processo seletivo no Tribunal de Justiça. Passou, foi contratado e iniciou as atividades ainda na semana da assinatura da carteira.
A conquista é simbólica e significativa, especialmente no mês do Orgulho LGBTQIA+, celebrado em junho. Para Alexander, o programa não é apenas uma política pública, mas uma ponte entre a vulnerabilidade e a dignidade. “Essas pessoas muitas vezes nem sabem que têm esse tipo de ajuda e direitos básicos. O programa abre portas. É transformador”, afirma.
Política pública de impacto
O Rio Sem LGBTIfobia completou 15 anos em maio de 2025 e se consolidou como uma referência nacional em políticas de inclusão e acolhimento para a população LGBTQIA+. Os Centros de Cidadania LGBT, espalhados pelo estado, oferecem suporte jurídico, psicológico e social para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais — vítimas de violência ou não. Mais que centros de atendimento, são espaços de resistência e mobilização por políticas públicas efetivas.
Segundo Ernane Alexandre Pereira, coordenador do programa e superintendente de Políticas para LGBTI+ da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do estado do Rio de Janeiro, o alcance do programa foi ampliado com a interiorização dos serviços. “Temos hoje 23 equipamentos espalhados nos 92 municípios. Isso nos permite atender com mais rapidez e sensibilidade, mesmo fora da capital. Trabalhamos com equipes multidisciplinares preparadas para acolher e atuar com seriedade”, explica.
Atendimento permanente e histórico de lutas
Instalado no emblemático edifício da Central do Brasil, no centro do Rio, o Disque Cidadania LGBT funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, no telefone 0800-023-4567. As janelas do sétimo andar carregam com orgulho a bandeira arco-íris e lembram a todos a importância da visibilidade e do suporte contínuo.
O programa nasceu oficialmente em 2010, após anos de reivindicações e organização da sociedade civil. Entre os marcos históricos, destacam-se:
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Lei 5.034/2007, que garantiu benefícios previdenciários a parceiros homoafetivos de servidores públicos;
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Decreto estadual de 2007, que criou uma câmara técnica para elaboração do então chamado “Rio Sem Homofobia”;
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Criação do Conselho LGBT, em 2009, vinculado à Superintendência de Direitos Individuais Coletivos e Difusos (Superdir);
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E, finalmente, o início oficial do programa em junho de 2010, com a inauguração dos primeiros centros de referência no Rio e em Nova Friburgo.
Em 2020, o nome foi atualizado para Rio Sem LGBTIfobia, para abranger toda a diversidade da sigla LGBTQIA+. Em 2021, com a sanção da Lei 9.496, o programa deixou de depender exclusivamente de decretos e passou a ser uma política pública institucionalizada no estado.
Desafios para o futuro
Apesar dos avanços, Ernane reconhece que há lacunas importantes a serem preenchidas. “Precisamos alcançar mais municípios, melhorar a infraestrutura dos centros e garantir condições logísticas às equipes, como veículos para atendimentos externos”, destaca. Ele também defende o fortalecimento de parcerias público-privadas e maior engajamento das prefeituras. “Muitos municípios ainda não abriram as portas para dialogar sobre a pauta LGBTQIA+. Precisamos vencer essas barreiras”, ressalta.
O trabalho do Rio Sem LGBTIfobia é um exemplo concreto de como a presença do Estado pode transformar vidas, especialmente em contextos de exclusão histórica e social. A trajetória de Alexander é uma entre muitas que atestam o impacto positivo da iniciativa. Ele agora sonha mais alto — com a continuidade dos estudos, estabilidade profissional e, sobretudo, com a expansão da rede de acolhimento para que mais pessoas LGBTQIA+ possam acessar direitos básicos e oportunidades reais de desenvolvimento.
“Espero que essa vitória coletiva continue e que o programa seja ainda mais divulgado. Tem muita gente precisando”, reforça.
Fonte: Agência Brasil

