O envelhecimento da população brasileira e os desafios que ele impõe à sociedade foram o centro da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025, cujo tema — “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira” — foi elogiado por professores e especialistas por promover um debate atual, necessário e repleto de implicações sociais.
De acordo com educadores ouvidos pela Agência Brasil neste domingo (9), o tema não apenas dialoga com as transformações demográficas do país, mas também incentiva os estudantes a refletirem sobre o etarismo, isto é, o preconceito contra pessoas em razão da idade, além de questões ligadas à violação de direitos e à necessidade de políticas públicas inclusivas.
Reflexão social e cidadã
Para a professora de redação Bárbara Soares, que leciona em Brasília, a escolha do tema é “pertinente, sensível e profundamente atual”. Segundo ela, o envelhecimento populacional brasileiro exige atenção redobrada e planejamento do Estado. “Há uma grande preocupação em como proteger essas pessoas. O Enem coloca uma lupa sobre um problema social que envolve vulnerabilidade e violações de direitos fundamentais”, explicou.
Ela lembra ainda que, em anos anteriores, o exame já abordou temas de valorização de grupos invisibilizados, como o trabalho de cuidado desempenhado majoritariamente por mulheres. “Precisamos de uma política nacional de cuidado, e esse tipo de reflexão é exatamente o que se espera dos alunos: uma análise crítica e empática”, afirmou.
Envelhecimento e políticas públicas
O professor Thiago Braga, do Rio de Janeiro, destacou a relevância da temática sob uma perspectiva demográfica e econômica. “Em 2070, quase 40% da população brasileira será idosa. Esse dado já é trabalhado de forma interdisciplinar nas escolas, pois a pirâmide etária do país está se invertendo rapidamente”, pontuou.
Braga ressaltou que os textos motivadores fornecidos na prova têm papel fundamental para contextualizar o debate, e lembrou que o Estatuto da Pessoa Idosa, sancionado em 2003, é um ótimo repertório sociocultural para ser citado nas redações. “A legislação é um marco civilizatório e pode ajudar os estudantes a estruturar uma reflexão embasada em direitos e deveres”, explicou.
Complexidade e acessibilidade
A professora Rayana Roale, também do Rio de Janeiro, considerou o tema de complexidade mediana, ou seja, acessível aos estudantes, mas com potencial de grande profundidade argumentativa. Ela destacou que a questão da idade perpassa todas as esferas da sociedade — do mercado de trabalho à convivência familiar. “Há muito repertório disponível e discussões recorrentes sobre isso. O desafio será propor soluções reais para o combate ao etarismo e a promoção de uma velhice digna”, observou.
Para Michele Marcelino, professora de redação em São Paulo, o Enem “acertou em cheio” ao trazer o tema à tona. Segundo ela, “a proposta permite discutir o etarismo, os direitos da pessoa idosa e os problemas enfrentados por essa população, como abandono, exclusão e preconceito”.
A docente complementa que o envelhecimento é um fenômeno social que impacta diretamente nas áreas de saúde, previdência e inclusão digital. “Trazer o tema para o debate é oportuno e coerente com as transformações do país. O estudante que souber articular o contexto social com soluções humanizadas fará uma excelente redação”, concluiu.
Juventude e diálogo intergeracional
A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bianca Borges, comemorou a escolha do tema por entender que ele provoca uma reflexão sobre os desafios do Brasil em garantir trabalho digno, previdência justa e acesso à saúde pública de qualidade.
“Esses desafios exigem políticas públicas sólidas e também mudanças culturais. O tema do Enem desperta empatia e consciência sobre como a sociedade trata suas pessoas mais velhas”, avaliou.
Ela também lembrou que, com a democratização do ensino superior, o perfil dos estudantes se tornou mais diverso, com muitos idosos realizando o sonho de cursar uma faculdade. “É inspirador ver pessoas com mais de 60, 70 e até 80 anos compartilhando a sala de aula com jovens. Essa convivência é o melhor exemplo de inclusão e respeito intergeracional”, disse.
Envelhecer com dignidade
O tema do Enem também dialoga com outras pautas já abordadas pela Agência Brasil, como a série especial publicada neste mês sobre médicos com mais de 80 anos que continuam na ativa, desafiando o preconceito e mostrando que o envelhecimento pode ser sinônimo de vitalidade e propósito.
Em 2024, outra reportagem da agência discutiu a realidade do envelhecimento LGBTQIA+, ressaltando a importância de políticas públicas específicas, atendimento médico especializado e respeito à diversidade ao longo da vida.
Essas iniciativas reforçam que envelhecer não é sinônimo de inatividade, e que o combate ao etarismo passa pela valorização das experiências, pela empatia e pela promoção de uma sociedade que reconheça a contribuição de todas as idades.
O tema do Enem 2025, portanto, vai além de uma simples proposta de redação — é um convite à reflexão sobre o futuro do país e sobre o modo como o Brasil encara sua própria maturidade.
Fonte: Agência Brasil

