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Uso do celular em aldeias indígenas desafia escolas e comunidades a equilibrar riscos e oportunidades

Com relatos de endividamento e queda no rendimento escolar, escolas indígenas de Mato Grosso restringem celulares e apostam na educação crítica e na comunicação autônoma para jovens

26/04/2025
© Fernando Frazão/Agência Brasil

© Fernando Frazão/Agência Brasil

Uso do celular – O impacto da tecnologia digital nas comunidades indígenas de Mato Grosso está no centro das atenções de educadores, líderes comunitários e organizações sociais. Na Escola Estadual Indígena Pé de Mutum, localizada na Terra Indígena (TI) Japuíra, no noroeste do estado, os próprios alunos identificaram e listaram na parede da sala de aula os efeitos negativos do uso excessivo de celulares: queda do rendimento escolar, falta de interação entre os estudantes, ansiedade, insegurança, exclusão e desigualdades sociais, entre outros problemas.

A iniciativa dos estudantes surge em sintonia com a decisão nacional, em vigor desde este ano, de restringir o uso de celulares em todas as escolas do Brasil. Na aldeia Pé de Mutum, como em outras comunidades indígenas, os aparelhos se tornaram ferramentas comuns entre pessoas de todas as idades, trazendo tanto facilidades quanto desafios. Um dos pontos mais sensíveis observados é o aumento de casos de endividamento por meio de jogos e apostas online.

O professor de ciências da natureza do ensino médio, Edson Utumi, confirma que, apesar das regras e orientações, muitos estudantes continuam usando os celulares durante as aulas. “Se você circular aqui pelo espaço da escola, até mesmo no período de aula, vai achar algum aluno distraído no celular”, relata. Segundo ele, os jogos online são os principais responsáveis por desviar a atenção dos alunos. “Muitas vezes, está pelo celular jogando e conversando com o colega do lado, mas pela internet.”

O impacto extrapola os muros da escola. Jovens da comunidade relatam perdas financeiras significativas em apostas online. Uma estudante, cuja identidade foi preservada, contou ter perdido mais de R$ 3 mil nesses jogos. “Não vou mentir para você, não. De vez em quando, eu jogo, sim. Apostei já uns R$ 4 mil, 5 mil. E ganhei R$ 1 mil”, revelou. Outra jovem, também anônima, disse ter perdido R$ 300 de uma só vez. “A gente acha que vai ganhar, mas acaba perdendo tudo”, lamentou.

Em outro ponto do território Rikbaktsa, na aldeia Barranco Vermelho, Terra Indígena Erikpatsa, a Escola Estadual Myhyinymykyta tem obtido mais sucesso em controlar o uso de tecnologia. Segundo o professor Givanildo Bismy, os alunos têm respeitado as regras e utilizam laptops fornecidos pela escola em atividades específicas. “A gente tem a aula com eles com o Chromebook, então, eles não precisam levar celular. Os pais também ajudam. Dizem: ‘Na escola, sua obrigação é estudar’”, afirma. “Hoje, a gente forma para o mercado de trabalho, para a vida. Incentivamos a graduação.”

Apesar dos riscos, a tecnologia também tem sido uma ferramenta poderosa de empoderamento cultural e comunicação entre os povos indígenas. O projeto Jovens Comunicadores, realizado no âmbito do Projeto Biodiverso, busca capacitar jovens indígenas e ribeirinhos para que se tornem protagonistas na produção de conteúdo sobre suas comunidades e realidades.

A coordenadora de comunicação do Projeto Biodiverso, Paula Lustosa, explica: “A ideia é ajudá-los a ter autonomia no que produzem sobre si mesmos. Queremos que eles falem da realidade que vivem, inclusive sobre os impactos ambientais e as mudanças climáticas, a partir de quem está dentro do território”.

As aulas do projeto envolvem cerca de 20 participantes, com atividades online e presenciais, abordando temas como comunicação ética, edição de vídeo, produção de conteúdo e checagem de informações. Uma das educadoras é a jornalista indígena Helena Corezomaé, do povo Balatiponé, também de Mato Grosso.

Josilaine Barkui, de 20 anos, é uma das jovens participantes do projeto. “Decidi entrar para divulgar nossa cultura, nossos saberes, como a gente vive aqui na aldeia. Já aprendemos bastante, como editar vídeos, entender sobre ética e identificar fake news”, disse. Segundo ela, a verificação de informações é um dos aprendizados mais importantes: “Chega muita fake news. Antes de divulgar, a gente procura saber se é verdade, se está em vários sites confiáveis ou se alguém da aldeia confirma.”

O Projeto Biodiverso, desenvolvido pela OSCIP Pacto das Águas com patrocínio da Petrobras, visa promover o uso sustentável da sociobiodiversidade em comunidades tradicionais da região. Até 2027, o projeto pretende atender cerca de 300 extrativistas, com metas de produção sustentável e assistência técnica contínua, contribuindo para a conservação de 1,4 milhão de hectares da floresta amazônica.

A equipe da Agência Brasil visitou as aldeias Barranco Vermelho e Beira Rio, na TI Erikpatsa, e Pé de Mutum, na TI Japuíra, nos dias 8 e 9 de abril, a convite da Petrobras, para conhecer de perto os desafios e conquistas de comunidades que vivem entre a preservação de suas tradições e a convivência com o mundo digital.

Fonte: Agência Brasil

Tags: #tecnologiaaldeias indígenasapostas onlinecomunicação comunitáriaeducação indígenaescolas indígenasexclusão digitalFake NewsJovens Comunicadoresjuventude indígenaMato GrossoPetrobrasprojeto BiodiversoRikbaktsaSustentabilidadeuso do celular
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