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Itamaraty dá posse aos primeiros diplomatas indígenas da história do Brasil

08/11/2026
Diplomatas indígenas: Mesa de autoridades na cerimônia de posse dos novos diplomatas no Palácio Itamaraty, em Brasília.

Mesa de autoridades na cerimônia de posse dos novos diplomatas no Palácio Itamaraty, em Brasília. Foto: André Guajajara/MPI

Marcelo Kariri e Idjahure Terena integram a turma mais diversa do Instituto Rio Branco, que também tem a primeira quilombola e recorde de mulheres

Diplomatas indígenas passam, pela primeira vez, a fazer parte da história do Itamaraty. Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, tomaram posse no Palácio Itamaraty, em Brasília, e se tornaram os primeiros representantes de povos originários a ingressar no curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco, ligado ao Ministério das Relações Exteriores.

A conquista vai além dos dois nomes. A turma da qual eles fazem parte é considerada uma das mais diversas já formadas pela diplomacia brasileira e inclui também a primeira pessoa quilombola a chegar à carreira.

Uma turma que se parece mais com o Brasil

Antes de assumir funções no serviço exterior, Marcelo e Idjahure vão cursar a formação oferecida pelo Instituto Rio Branco, em uma turma que começa em 2026 e se encerra em 2028. O grupo reúne cerca de 60 alunos aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).

Quase metade desses novos alunos pertence a grupos historicamente sub-representados na diplomacia do país. Além dos dois indígenas, a turma conta com:

  • 17 pessoas negras;
  • sete pessoas com deficiência;
  • uma pessoa quilombola.

A presença feminina também bateu recorde: as mulheres representam 45% do grupo, a maior participação proporcional já registrada.

O concurso que selecionou a nova turma contou com ações afirmativas, entre elas uma política prevista no Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e uma demanda antiga dos movimentos de defesa dos direitos humanos.

Diversidade como política de Estado

Durante a solenidade de posse, realizada na quinta-feira (5), a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, ressaltou que o corpo diplomático precisa refletir a diversidade do povo brasileiro. Segundo ela, celebrar a chegada dos primeiros diplomatas indígenas e quilombolas a uma instituição bicentenária, em um momento de ameaças à democracia e aos direitos garantidos pela Constituição de 1988, é um ato de resistência.

A ministra afirmou ainda que, com essa decisão, o Itamaraty reconhece o papel que esses grupos têm na definição da posição do Brasil no mundo. Ela citou medidas adotadas para ampliar a diversidade na carreira, como a expansão do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que antes atendia pessoas negras e passou a apoiar também mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.

Aldear o Estado

O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, definiu a posse como a concretização da ideia de “aldear o Estado”, ou seja, levar lideranças indígenas a espaços técnicos capazes de influenciar decisões dentro e fora do país.

Ao olhar para a história, o ministro lembrou que, há poucos séculos, os indígenas que hoje chegam ao Itamaraty sequer eram reconhecidos como seres humanos. Para ele, o momento é altamente simbólico e representa um ganho não só individual ou coletivo, mas de toda a nação e do Estado brasileiro.

Convidado de honra da cerimônia, o escritor e pensador indígena Ailton Krenak, membro da Academia Brasileira de Letras, compareceu vestindo o fardão da instituição. Ele celebrou a ocasião e destacou que a presença de famílias e crianças indígenas na solenidade quebrou a frieza típica dos ambientes institucionais. Krenak desejou que os novos diplomatas sejam capazes de exercitar o verbo esperançar mesmo diante das dificuldades.

Quem são os novos diplomatas indígenas

Os dois jovens chegam à carreira com trajetórias acadêmicas e profissionais de destaque.

Marcelo Kariri nasceu em Campina Grande, na Paraíba. É engenheiro eletricista formado pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Entre 2021 e 2025, trabalhou como engenheiro de suporte a produtos. Também é autor de um livro infantojuvenil.

Na cerimônia, Marcelo contou que, na região onde sua família vivia, havia a crença de que pessoas como eles perderiam o juízo se estudassem e deveriam se limitar ao trabalho braçal. Foi a mãe, segundo ele, quem enxergou na educação uma porta para a vida.

Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre na mesma área pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Ele é filho do artista Macsuara Kadiwéu, o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.

Para Idjahure, entrar no Itamaraty significa ter consciência de um longo histórico de exclusão e tutela e, ao mesmo tempo, lutar por um futuro em que a diversidade étnica do país finalmente faça parte do Estado.

Um país plural

A chegada dos diplomatas indígenas ganha ainda mais significado diante do retrato da população brasileira. De acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tem cerca de 203 milhões de habitantes, dos quais 1,2 milhão são indígenas, distribuídos em 391 etnias que falam 295 línguas diferentes. Há ainda 114 grupos isolados ou de contato recente.

Já a população negra soma 92,1 milhões de pessoas, segundo o mesmo levantamento.

Diplomatas indígenas: representatividade que inspira

Para jovens indígenas, quilombolas, negros e pessoas com deficiência de todo o país, inclusive da Amazônia, a nova turma do Instituto Rio Branco mostra que a carreira diplomática, por muito tempo vista como distante, pode ser um caminho possível. A presença desses novos profissionais deve levar às mesas de negociação internacionais olhares e experiências que, até agora, raramente eram ouvidos em nome do Brasil.

A chegada dos primeiros diplomatas indígenas ao Itamaraty marca um momento histórico para a diplomacia brasileira. Ao ver diplomatas indígenas representando o país, novas gerações passam a enxergar esse caminho como possível.

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Foto de destaque: André Guajajara/MPI

Fonte: Agência Brasil

Tags: ações afirmativasAilton Krenakdiplomatas indígenasdiversidadeInstituto Rio BrancoItamaratypovos indígenasquilombolas
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